You've Got a Friend in Me

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A vida tem uma organização orgânica que não deveria nunca ser modificada. E é esse o problema mais crônico que a torna bela e intensa. Aquela velha história de que um pai jamais deveria enterrar um filho. Ou quando a morte passa uma rasteira repentina em alguém que a gente gosta.

A morte; eu não sei lidar com ela.

Talvez porque seja uma das únicas razões inexoráveis e inolvidáveis que temos como certezas plenas. Aliás, vida e morte são a mesma coisa. Regem o mesmo sentido. São arqui-inimigas e se amam como uma novela belga.

Pois então: a esposa de um amigo se foi.

Uma morte absurda, repentina, violenta. Abalou todo mundo ao nosso redor. Quebrou a organização orgânica que não deveria nunca ser modificada. E por eu viver em  uma distância idioticamente longa, recebi por email, whatsapp, icq, msn, twitter, facebook e sinal de fumaça a notícia. A cada 15 minutos alguém buzinava na caixinha de resposta e não pude parar de pensar nisso o dia inteiro.

A dor de uma perda assim tem gosto amargo. E acredite, é intragável.

Meu amigo ­– um cara genial e bom (no sentido da bondade verdadeira) – está sofrendo como nunca vi alguém sofrer antes. Não consegui pensar em nada viável para ajudar. Nosso chefe (nem é mais nosso chefe, não importa: vai ser o chefe pra sempre) perguntou: o que podemos fazer para ajudar? Não sei ainda, faz 3 dias que estou pensando em uma resposta.

Não existe uma forma conveniente de tentar amenizar essa sensação de condensamento vivencial. Não existe palavra que conforte e ninguém nunca criou uma rotina psicológica que amenizasse, com sucesso, esse processo de perda. Eu fico preocupado. Eu fico preocupado em como ajudar a reagir. Não tenho ideia.

A morte, sem-vergonha.

A morte. A vida, o tempo.

Três criaturinhas que não param um instante sequer.

Eu não sei lidar com a morte.

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Esse tipo de texto não ajuda em nada. Mas é que desde quarta-feira minha rede social perdeu a graça de uma maneira assustadora. Eu entro ali e vejo tristeza. Não só tristeza, mas preocupação, a sensação do desgosto e do vazio. A genialidade a e forma de interação pessoal está suspensa em um ar denso e opaco. Por um tempo que eu não tenho ideia e nem preciso saber. Ele é meu amigo #1 (0.34757667406701) no Facebook Friends Ranking Score.

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E eu sei que você tem a cara do Woody, então segue a sua música:

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Esse desenho da capa é uma árvore da vida. Desenhei para você. Pelo menos ficou mais bonita que a do Darwin.
E sim, pegou fogo porque eu estava tentando secar o nankin em uma lâmpada HID e quase incendiei a casa. 

 

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

Um comentário

  1. Ralph, posso imaginar a tua dor, mas neste momento é só pedir a Deus… Com toda tua tristeza você conseguiu fazer um lindo texto e um belo desenho! Bjos.