XVIII – Livreiro e o amor

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Das caminhadas leves à orla mansa, o livrólogo consegue capturar nas retinas, que suplicam óculos de grau, uma vastidão de tonalidades amarelas-azuladas de um pôr-de-sol preguiçoso. Todo pôr-de-sol exala a preguiça de um vascolejo estelar. Bem coisa astrônomica. Dessas estrelas tímidas o mundo o lembra, livreiro, da mulher que o espera pertinaz: a beleza de seus olhos refletem luzes e sentimentos. Não queria se gabar do momento, mas era não-lógico obstinar algumas linhas sobre a reflexão não-linear de sentimentalidades que os brilhosos olhos negros de diva o refletiam.

Ah livreiro! Esta era a sua amabilidade inconformada: comparar as vivências casuais com as confrontas sentimentalidades que de sua pretendente o sorriam dia inteiro. A paz da maré? Hum… deixa-me ver: cara de anjo ao acordar! O ar de inverno que enevôa a orla? Facil: perfume natural que do lado do seu colo é de perfeito sentido.

E tudo isso — o livreiro a conhecia como o mundo — era a visão exata do efêmero momento em que tudo se é tido, um momento intrinseco entre o tudo e nada, emplacado de tonalidades de tempo e sentimento, névoas e brumas, o certo e o beijo.

A saudade desse momento é tida como extinta. Os momentos se encaixam em posterioridades que ainda o livreiro ousa prever, como menino serelepe de imaginação incontida. Sim, vôos de braços abertos em proas de navios. Pescar com as mãos aqueles polvos grudentos, quem não faria isso?

Mas é o pôr-do-sol que o livreiro fita em uma orla esmairecida por calmaria inconstante. O sol se acaba em uma montanha de lívidas paineras que filtram a entristecida claridão amarela. Há no ar a melancolidade do encontro das entrelas e lunas e tudo mais que a noite o reserva, não tenha dúvidas. Silêncio do dia e alvoroço da noite, Calar de sol, diria o gajo do bigode-de-arame.

E o livreiro pensa um pouquinho mais, agora nem é orla nem sentimentos, apenas alma e coração. Sentimentos, inquietações de certezas e medos incertos. Ainda reluta em acreditar, mas comove-se ao saber da certeza venal de seus sonhos. A mulhe, que o espera na ternura de um aconchego substancial o é sonho, entende como?

Das certezas, e isso o acostumou em prosas deliciosas, presenteado foi de uma mulher perfeita. Existe felicidade maior? E é toda a presença de um Deus verdadeiro que o povoou de alegria que se transborda essa inquietação explicita de surtos alegrísticos de emoções que o incendeiam o coração.

E lá vai o livreiro assoviando um minueto qualquer, provavelmente Bach. E a rua o acolhe prazenteira.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.