We´d be off gallivanting*.

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Este é o primeiro dos milhares de novos posts sobre uma pequena mudança vivencial na minha vida. O texto é grande (precisa ser, é um desabafo) e se você tem preguiça de ler mais de três linhas, aperta Crtl+W que aparecerá um resumo de tudo na sua tela.

Resolvemos mudar de país. Como você já deve ter percebido pela imagem acima, nosso ponto-de-mira é o Reino Unido. Especificamente a Inglaterra.

Pensamos em algumas localidades interessantes como o Canadá francês, Alemanha, Islândia, Antuérpia, Seichelles, Austrália e até a Nova Zelândia. Mas por questões de praticidade, cultura, idioma, e até financeira, a Inglaterra do Sul foi a melhor pedida.

A vida aqui no Brasil estava muito boa. Incrivelmente calma, com empregos bons, salários fartos, amizades incríveis e muita coisa para fazer. Mas essa estabilidade e segurança toda estava me deixando louco. Minha vida sempre foi permeada por decisões estranhas e reviravoltas dantescas. Nunca consegui estabilizar a vida em mais de 5 anos.

Brasília estava batendo o recorde.

E olha que eu ainda não fui com a cara da cidade. Essa cidade é pra enlouquecer.

Já reclamei muito, pestanejei e tentei acertar um belo soco na ponta da bowie brasiliense, mas não deu certo. A questão que permeava minha vida estava justamente nisso: “Viraria eu um sacripantas do funcionalismo público?”

Claro que não, né. Minha vida é regrada em princípios que fazem uma fodelança homérica na minha vida. As prerrogativas que regem essa história toda são visceralizadas por idéias que nunca dão certo e por alguns pitacos de sorte e falta de juízo.

Olha como estava tudo arrumado: em dezembro do ano que se passou o plano era simples: comprar um Troller, um apartamento de 4 quartos simples e inventar um herdeirinho. Isso tudo supostamente significava enfiar uma raiz pivotante com tudo no solo brasiliense. E se redimir à desgraceira.

Janeiro deste e o plano estava todo mudado. Nada de apartamento, jipão diesel 4×4 nem criança. Aliás, nem nada mais aqui, apenas passar a régua e pedir a conta.

A decisão foi rápida. Claro que essa mudança para a gringa foi oficializada, com passaportagens, permesos, carimbos, chancelas e selinhos sineteados. Não sou retardado de ir ilegal, e nem tenho idade para tal idiotice.

Para foder tudo de vez, no dia da compra do one way ticket to ride descobri que passei em segundo lugar em um concurso público desses que te faz viver para sempre e aposentar da maneira mais porca e segura do mundo, sem pensar muito e o melhor: ter um gabinetezinho marrom mofento para sempre. A questão foi tão explicita que eu até achei graça: em uma mão, passagens para um país fedorento, frio e foggento; na outra, a mais bela e tranquila forma de envelhecer engravatadamente.

Claro que escolhi morar fora. Onde já se viu eu manear o sucesso assim, descaradamente?

Na verdade desde dezembro, quando meu carro foi para o reino-dos-céus-dos-carros-4×4 e todo aquele dinheiro que ele não valia pingou na minha conta, um fardo bom e grande de preocupações se esvaziou dos meus mensalismos. Claro que andar a pé (ônibus e metrô) em Brasília é uma merda, impossível e proibido. Mas a economia de algo em torno de R$1500 por mês é incrível. Economizando assim, ganhei outra vantagem: ando pra caralho a pé e frequento o reduto mais lazarento do mundo: o terminal rodoviário de Brasília (e Conic, por tabela). Meu convívio com gente feia, despenteada e fedorenta conseguiu atingir patamares impressionantes. E isso não é uma reclamação preconceituosa, veja bem: estou inserido na massa protéica de cidadãos passivos e inócuos. Um extremismo bipolar severo, uma vez que, de vez em quando, frequento casas de diplomatas, ministros, desembargadores e até deputados.

Colocando um pouco de lenha na fogueira, o Brasil está perdido, meu povo. Não existe esperança de melhorar em menos de 50, talvez 100 anos. E a culpa não é dos políticos, nem poder público: e da gente. Brasileiro é a raça mais filadaputa que existe e não tem como rebater isso. É um povo delicioso e feliz, festeiro e gostoso, igual não tem e isso eu defendo com unhas e dentes. Mas não somos sérios, honestos nem educados. Educados! Essa era a palavra.

Cultura e educação.

Eu tive algumas propostas realmente sérias e grandiosas de enriquecer aqui. Mas eram corruptivas e fantasmagóricas. Golpes pestilentos que invalidariam-se com uma moral idiota que ainda carrego sem culpa.

Mas vamos ao que interessa: 09 de agosto de 2011 é o meu take off. O dia em que o Brasil — teoricamente — ficará no meu passado histórico e varonil e uma nova escolha de vida se abrirá diante dos meus olhos.

Claro que parece uma loucura senil e mal pensada, não tem como não ver assim. Mas, seguindo aquelas premissas hippies de “foda-se tudo” estamos tentando curtir a vida adoidado, nunca é tarde para arriscar o futuro intangível.

E o mundo vai acabar em 2012, então não tem por que se preocupar.

Teremos muita conversa até lá, sobre o assunto. Pode ficar sossegado.

Agora em maio farei uma farewell expedition pelas terras patagônicas, envolvendo Argentina, Chile e Uruguai. Tudo de carro, com algumas neves, vinhos de exquisita cosecha, cadenas nos coches. E bem despacito, porque vamos de carro.

*Gallivanting é uma gíria. Tem tanto (e nenhum) sentido que ninguém, ao certo, sabe como usar. Fooling around, indeed.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

0 comentários

  1. Não consigo fazer essas coisas… dizem ser o signo, mas não sou muito ligado a essas mundianices…. a verdade é que não me arrisco, adoro a segurança. A segurança pode ser cruel também, ela amarra a evolução, as mudanças acontecem muito lentamente.

    Tenho certeza que vocês estão indo “com a cabeça nas nuvens, mas os pés no chão” e isso os difere totalmente dos aventureiros mochileiros que saem pelo mundo e pela sorte.

    Só me resta esperar boas fotos e ótimas notícias né? 😛

  2. Quem dera eu não tivesse raizes… ou melhor dizendo: tivesse culhões de aço para realizar tais peripécias. Mas o foda é que a vida andou, as coisas aconteceram e hoje me vejo um responsável pai de família mantenedor de meu lar. Juro, as vezes me carcome a vontade de soltar um foda-se extra-large, colocar mulher e filho debaixo do braço e zapar rumo a um caminho novo… mas como disse, faltam-me “balls of steel”. Quem sabe as coisas um dia acontecem, como aconteceram até hoje e meu caminho converge à mudança ou acabo tomando coragem, meto o pé na porta e brado em alto e bom som um belo “Hasta La Vista, Baby!”. Quem sabe…
    Ademais, 2 adendos: desejo a vocês 2 (pessoas fantásticas e fodasticas) que a empreitada futura seja mais do que bem sucedida! E antes de dar “o voô do morcego” ai de vcs se não passarem por aqui pra conhecer o Geisinho e dar aquele tchau típico das despedidas emocionadas.
    Abraço!

  3. Nossa….que notícia ótima, estou muito muito muito muito feliz por vcs!!!
    Desejo muita sorte, e acredite, vai dar tudo certo!!!
    =)))
    Estamos na torcida e aqui para qqr coisa que precisarem.