Viver sozinho

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Percebi claramente que estive impregnado de angústias e desilusões. Viver sozinho era horrível e isso me tornava uma pessoa insegura. Compatilhei minha vida com mulheres e estas mulheres assim me tomaram. Relacionamentos que vivi surgiram errantes e deturpados por uma sede de lamentações murmuriosas das minhas necessidades de presença conjunta.

Resolvi viver como poetas e loucos.

Solidão me afagou a alma e beijou minha testa carinhosamente. Ora, solidão, quem diria que em seu fél de insensatez eu encontraria a inspiração da escrita sentimental e intimista?

Nas longas noites de solidão que seguiram acreditei — na razão de viver — uma completa busca espiritual. Vida que outrora fôra textos reflexivos, poesias melancólicas e desenhos furtivos de uma alma que respirava sem horizontes, mas com paciência e constância intensa.

Viver em solidão não gratificava-me com boa-noite em uma penumbra de névoa espessa fustigada de sorriso qualquer. Abraços devassos de um frio sonolento e esquivo de prazeres mútuos. Intrincava-me sempre as profundezas de um amor que certeiro desacreditei. Amor que fecharia portas para sempre. Caso não o olhasse nos olhos novamente.

Mas olhei-o.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>