Viver de vazios

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Então ela não escreve.

Talvez por motivos de tempo ou subserviência, vá saber. O fato é que os outros falam diariamente das palavras. Da falta que fazem as palavras. Da maneira que as palavras tagarelam na tela e da boataria toda que se faz desnecessária e alheia. Um ato amargurado de publicação para que os outros leiam, engulam a sopa de letrinhas e pulem para outro diário ao lado.

Ela sente-se entranha. E quem não se sentiria? Acredita que não tem idéias fabulosas ou pior: acredita no furto da liberdade ponderada. Quiçá um assalto de inspiração. A idéia é faminta de inspiração. Andam juntas, fagocitam-se cantarolando qualquer modinha. Parece estranho, mas é saudável.

Sempre foi assim.

Quando os outros pressionam, a idéia encabula e a inspiração assopra-se para qualquer canto escuro. Nem olha para trás, nem percebe a lacuna que se formou entre o ato de criar e a esperança do concreto. Como a poesia não escrita que está na cabeça d´ela. O espaço entre o que poderia ter sido e o que nunca mais será.

Sobrou só a idéia.

Pequenina e tristonha, insiste em choramingar a solidão que a inspiração causa.

Ela a sufoca e diz que nao existe o vazio. Mentindo, é claro. Sorri, faz cara de descontraída e feliz.

Então ela não escreve, não fala e nem notícias dá.

Não é a falta de tempo, nem o trabalho. Não é a faculdade, não é a viagem de negócios. Tempo ela tem. Todo o tempo do mundo.

A verdade óbvia? De vazios ela não sabe viver. Escrever o nada? Não. É que do nada, nada há para ser dito.

Entende como?

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.