Viver de hojes

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Viver é conseguir mudar dia-a-dia os sentimentos que apenas postergam a existência de qualquer minh’alma. É ser um outro e este mudar como queira. Sentimentos de um passado ontem, de uma realidade agórica e de um futuro pertinente e insensato.

Não viver é destruir o passado em patacoadas e desatinos. É iniciar invariavelmente todo dia o desejo de não se ausentar. Apenas estar aqui é ter a complacência de uma virilidade marginal, uma toque no âmago do que realmente somos. 

Nesta noite, tempo qualquer, a vida incendeia-se como um nada. É na escuridão de um sono incontido e agonia insone que aparece a necessidade da sua luz. E essa sua luz quem sabe nunca existiu, essa noite nunca aconteceu, a agonia sufocada em tormentas apenas arraigou-se de tédio compulsivo. Quem sabe eu não tenha existido, sou apenas consciência vã, sua apenas lembrança.

Amanhã, ah o amanhã! Será qualquer outra coisa sem sentido. A intocada vida amanhã encarregar-se-á de recompor a estafada mente em novos torpes desvarios.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>