Vitrola no phono; Spotify no optical.

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O dia em que eu resolvi comprar um toca-discos do Fofão e tocar uns bolachões. Mas deixei o wi-fi no apt-X para equalizar o socorro digital.

A música sempre foi um acessório de consumo secundário na minha vida. Aquela velha história de prioridades e dissociações sem qualquer responsabilidade.
Minha geração é de uma época medíocre sem algum impacto no mundo artístico. A boa música dos anos 60 e 70 pararam entre os anos 80 e 90, quando a dona morte começou a ceifar sem muita deliberação uns bons nomes musicais.

Junte isso ao fato de que gosto de consumir tecnologia com sucrilhos no café da manhã. Os discos ficaram em algum canto; os digitais colocaram a bota na cara do vinil. Aliás os CD’s também morreram com 27.

Mas o problema sério do vinil era a maneira desmerecida de reprodução: o Brasil não comportava mercado de bons aparelhos de som e, quando se comparava uma agulha desgastada CCE/Polyvox contra um leitor à laser, não existia dúvidas sobre aposentadoria por invalidez.


Depois dos imponentes três-em-um, nunca mais vi caixas grandes ao meu redor. Os micro-system apareceram, a portabilidade foi uma afronta aos solid-state e a geração digital conseguiu se resignar aos horríveis alto-falantes de computadores pessoais. Ou pior: som de notebooks.


Resolvi investir em um equipamento hi-fi. Foi a primeira vez que dediquei tempo e bestunto para entender metragem de ambiente, reflexividade, sistema de amplificação, tipo de alto-falante e até qualidade da fiação. Um colega ‘audiófilo’ me mostrou o caminho da roça e os brilhos do real-mundo-novo.
A experiência é impressionante.

O legal é que levei 3 dias para colocar todo o sistema operante. No quarto dia, percebi que tinha um sistema sonoro surpreendente, um toca-discos MM cheirando à novo com braço calibrado e agulha alinhada e… nenhum disco.

Zero, nill, patavina alguma.

Mas, voltando ao vinil: resolvi contactar meus pais para ressuscitar a velha coleção prensada familiar. É interessante que eu ainda lembro de cabeça os discos que a gente tinha. O abandono de uns 20 anos na coleção geraram uma sequelas irreparáveis e a maioria dos discos sumiram do cativeiro.

Mas olha só que coincidência: abriu uma loja de discos do outro lado da rua onde moro. Chamada Small Wonder Records.

Pete and Mari Stennett behind the counter at Small Wonder Records (which they opened in December 1975 and ran until 1983)
Pete and Mari Stennett behind the counter at Small Wonder Records (which they opened in December 1975 and ran until 1983)

A loja era “A” Small Wonder Records. Isso mesmo, a loja ícone dos anos 80 no meio punk. E ela abriu e fechou em 2 semanas: uma pop-up retail. Eu não sabia o que era isso. Nem que essa loja era um museu. Toca aqui.

Mas, foda-se. Eu sempre chego atrasado. Resolvi andar sem rumo no meio do Soho, lá tem muito barbudinho de cabelo engomado, o que deve ser ímã de lojas de discos.

Encontrei a Sister Ray (que aparentemente era para ter fechado e não fechou). Comprei 4 discos lá.

Discos novos. 180gr.

E Miles Davis deflorou uma vitrola nova. E a vitrola nova deflorou um Kind of Blue (que, oh! é um disco azul).

Foi uma suruba sonora.

E, pela primeira vez na minha vida eu consegui entender a briga entre música digital e música mecânica analógica de forma convincente.

A minha meta é construir uma discoteca. Ela terá 46 discos no total (18 internacionais e 28 nacionais). O bom é que eu já tenho 8,76% dela, o que torna a tarefa menos árdua.

Oremos.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.