A vida útil

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FALLNada é mais triste do que o definir vida útil de produto, idéia ou gente. Vida útil de gente é expectativa de vida — ou no pior dos casos — sobrevida com produto-limite.

O mundo é muito cruel e perfeito, o que restringe a inexistência eterna de qualquer elemento. Não existe nada que se possa fazer.

O que é bom.

E mau ao mesmo tempo.

Estava eu resmungando que não sobrou quase nada dos meus brinquedos de criança, justamente porque eu… brincava com eles. Destruí quase todos por desgaste e uso excessivo. Hoje em dia posso encontrar quase todos na internet, para venda. Valores altíssimos. Alguns na caixa, ainda. Aí pensei com meus botões: “Oras, mas que criança imbecil era essa que não estragou ou usou o brinquedo até ele partir no meio? E que ainda guardou a caixa!?”. E foi por isso que eu jamais consegui comprar um brinquedo similar do meu passado. Seria reviver algo que teve uma vida útil e que não merece mais sobrevida.

Passemos para a internet.

Meu xodó era meu ICQ. Ou o email da Northrop ou o da Amexmail. Ou o Messenger cheio de amigos ou o Orkut e minha comunidade maneira com mais de 12 mil membros. Meu blog em 2002 e as dezenas de amigos ao redor dele no “Blogroll”. Blogroll! que cadeia mais interessante de um mundo insensato!

Tudo isso morreu. Comunicadores, redes sociais. Pode apostar que a rede social da modinha já está com dias contados, só esperando a nova bola da vez.

Tenho pensado muito em somar os ativos e dividendos deste site e pregar uma nota de desmerecimento naquela parede verde da ala histórica dos blogs que fizeram o passado e sumiram na poeira. O passado. Nada mais têm sentido, é um flanar por um ar pesado e sem norteio. Não posto mais, não escrevo mais, não invento mais textos nem mentiras que parecem verdades. Não tenho o nome para um novo personagem. Eu postava fotos. Todas. Eu gostava de mostrar ilustrações e rabiscos, por mais porcos que fossem. A pergunta que sobra é: pra quê tudo isso? Qual a real intenção e a idéia no final das contas?

Sinto muito pelo desapego, espaço. Mas desapeguei do que mais me motivava e isso é suficiente para ser frio. Eu não tenho mais aquele sorriso no rosto e nem o brilho de tentar mudar tudo com a facilidade de um aperto de mão.

Aprende-se muito quando se percebe que a lição só é entendida com tempo, paciência e um pouco de sorte.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

2 comentários

  1. Eu costumo pensar que mais estamos curtindo o que fazemos, onde estamos e com quem estamos quanto menos precisamos expor isso para o mundo. Por isso deixamos de fruir dos devaneios e quem gosta de escrever abandona o lápis ou o mantém mais particular, digamos… Falo isso pois foi assim comigo.

    1. Sim, Will, esta é a proporção dos meus ideais. Algumas vezes abandono propósitos para reencarar novas situações.

      Percebi que é muito difícil escrever textos legais e isso me deixa desanimado toda vez que posto ideias mediocres. Tentei mas não achei solução.