A vergonha da exposição antagônica

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A melhor coisa da vida real antes da internet e dos realities era o fato de que, tirando a barulheira do arranca-rabo do casal histérico que separava no apartamento ao lado, ninguém, de fato, compartilhava muito acontecimentos da vida quotidiana com estranhos quaisquer. Hoje a exposição é uma coisa incentivada, comemorada, regrada. Eu tenho profundo arrependimento de ter publicado textos e idéias pessoais na internet do passado. Fotos. Videos.

Gente que ainda cai na tentação de filmar ou fotografar coisas que não deveriam ser fotografadas ou filmadas (todo mundo sabe disso) e que, cedo ou tarde, vazam para o broadcast insano dos canais undergrounds. Caiu na rede, amigo.

A garota ficou seminua e apelou na última noite do Rock in Rio. O buzz foi bem empregado. A lembrança eterna da garota que tirou foto seminua na entrada de um banheiro químico fedorento foi semeada. E essa imagem nunca mais será esquecida pela internet, a rede mais implacável que existe. Não que eu ache estranho, pelo contrário. Apenas não entendo o preço de cada um. O preço subentendido como valor. [O preço é baixo.]

Juro que acompanho o mundo a cada minuto que se segue e tento entender algumas coisas, mas tá difícil. O recado foi transmitido todo errado e ruidoso. Inteligência é commodity e o preço do grama do ouro nunca vai despencar. No fim, o silêncio é o segredo para qualquer abstração existencial.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>