Um diário e a vida após os blogs

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Bem-vindo, novamente, pela sexta vez seguida, ao meu blog. É, blog mesmo, no sentido mais simplório e sem pretensão de formalização.

Eu tinha a ideia fixa de criar um diário e escrever livremente. O plano deu certo. Mas a liberdade de escrita foi por água-abaixo.

Na internet sinto-me em casa. Sou da geração enfadonha que nasceu analógica e se converteu digital no melhor momento da adolescência. A transição foi da brincadeira de rua e do uso braçal para uma imensidão virtual sem limites.

Muitos se afogaram com tais liberdades. Outros se constrangeram e perderam o fio da existência criativa. Juro que tentei sobreviver agarrado em um tronco que flanava perto de mim. Acho que morri e nem me dei conta.

A morte é assim, pode apostar: ninguém quiçá acreditaria se alguém lhe dissesse: “Morreste, amigo”.

Depois desse pequeno prolegômeno que se fez necessário, Londres. Londres eu me sinto em casa. É uma cidade porca. Insensata. Egoísta. Perfeita para milhares de cabelos alinhados no gel com um pente 85 dentes.

Não sei porque vim para cá. Era eu um matuto, vivia com os dentes amarelados de guavirovas. Pisava descalço em bosta fresca de vaca para sentir o quentinho serpentear entre os dedos. Repentina a mudança, sim. Do esterco para o tweed. Nunca sequer passei da cerca do seu Ribas, que era para não tomar gosto por andanças, e agora disputo área-comum com a casa de Windsor.

A Rainha Elizabeth II, Governadora suprema da Igreja da Inglaterra. Casa de Windsor.

Depois de uns anos flanando por estas cercanias, perdi meu súber existencial. Não foi ruim, sabe? Eu imaginava um processo extratificado mais doloroso e rasgado. Desaprendi tudo e reempacotei de um jeito novo. Diferente eu diria. Não o correto, com certeza.

Londres é uma cidade hostil. Sorri por caridade. Not too bad. Não morreria, nada muito mal que não possa piorar. As caras do anonimato são impressionantes e todo dia crio nomes, apelidos e profissões para essas criaturas que estacionam em minha frente no metrô.

Agradável clima; que os bons ventos sempre tragam o frescor da primavera.

O clima é ideal para mim: nublado, sem muita luz para doer as córneas. Frio, jaqueta quase sempre cobrindo o couro. Vitamina D sumindo, subaqueira nunca mais. Em mim. A vizinhança de assento é fedorenta. Relaxada. Das unhas sujas. Ou talvez sejam gentes normais e eu que sou asseado além da conta, vai saber. Em Londres o inglês foi extinto.

O inglês no sentido do mameluco-índio-nativo, aquele chapa dândi que usa casaca. O principado aqui é uma terra expátrida onde todo mundo é qualquer coisa — em qualquer sentido — e tenho a certeza absoluta que esse comportamento acabou com o ecótone entre os naturais e os artificiais.

Não é ruim, no final das contas. O problema é que o inglês — o idioma agora — é um troço muito esquisito na metrópole. A língua de Austen e Dickens existe só naquelas novelas de época. A realidade londrina é diferente: um balbuciar grosso e espesso. Como pugilistas que acabaram de aplicar sóvas mútuas e, na graciosidade ébria de um pré-nocaute, ainda tentam manter a compostura geniosa do diálogo avesso.

Tem razão isso tudo: apenas 40% dos londrinos são ingleses de fato.

A mímica e o minimalismo de informações imperam. Não existem os debates harmoniosos. Vez ou outra ainda pasmo com uma inglesa qualquer, que está erroneamente flanando pela babilônia, a conversar. Que fluidez invejável esse povo de fora do quadradinho ainda usa! E que triste essa graciosidade ter se perdido na dureza da Old Int’l Smoky.

Gente londrina assistindo futebol em um domingo de pub (qualquer coisa “arms” no final do nome é um pub).

O Blog. Eu matei e desmatei aquele blog, infelizmente. Ressuscitei e reergui tudo. Madcap. Opio. É o que eu acho. Aliás o Opio voltou no backup. Madcap.com.br existe (o domínio), tá na mão ainda; o conteúdo é o que tem nos arquivos desse blog que vos fala. Não matei o escritor. O que é bom. Vão se as mídias; fiquem as ideias.


Este é meu primeiro post aqui, depois da renovação carismática ideal. Não espere surpresas ou devaneios estarrecedores. A lógica continua a mesma: marasmo. O conteúdo vêm aos poucos: Muita letra e pouca figura. Para quem lê foto, vai ser um pouco complicado, mas tem sim, espere e tenha paciência.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

10 comentários

  1. Um órfão do Médiquépe não desiste nunca! Eu. Ainda bem. Textos assim são como os solos do Davi de Guil More. A gente sabe a métrica quando começa a ouvir. E sabe que não vai muito além de um ou dois modais da pentatônica. Mas sempre são gratíssimas surpresas. Fraternal abraço! Natanael.

  2. Alou Meu grande amigo Ralph, em comparação a mim, devo dizer Alou meu gigante amigo….enfim, que bom que voltou com as escrituras sobre as coisas que habitam sua cabeça e seus olhos. Mas me diga, não achei um botão nessa página para poder acompanhar sempre! Existe isso ou tenho que copiar o endereço na agenda e toda vez escrever pra aparecer essa página? Existe alguma coisa que notifica no email a chegada de texto novo? No mais, sem mais nada, obrigado! Abraço.