Um ano overseas.

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Um ano fora da terra que tem palmeiras. Não sei mais enaltecer coisas que não entendo. Deixei de criar deuses para cada interpérie da natureza. Estou mais apático e perdi o medo de ser violentado socialmente.

Neste um ano de vida além-mar encontrei muita dificuldade. Achei emprego fácil. Descobri que meu histórico profissional é pífio. Não que eu só tenha encontrado referências vangoguianas aqui na região. Pelo contrário, o povinho é meio ruim de roda. Acontece que eu continuo achando essas coisas que escrevo, desenho, codifico, recorto e submeto… tacanhas. Esse achismo não é leviano; tem embasamento pesado e tese defendida.

Eu sou chato demais. Mal humorado até. Então encontrei essa gente por aqui que falam bonito em um inglês floreado e percebo que minha rusticidade não é tão fora de contexto. Algo como o amálgama prateado e grosseiro numa canjica branqueada artificialmente.

Tenho previdência privada gringa e adquiri o pretexto comum de aposentar aos 65 com mais de milhão na conta. Veja se tem cabimento uma coisa dessas. Pensar no futuro. Se eu não fizer bosta nenhuma e continuar flanando sem aspirações, fecho esse ciclo com sucesso.

A vida social não está lá essas coisas. Mandei prender 4 britânicos dia desses. Fiquei amigo dos gambé. Amparei garotas destrambelhadas prestes a cair, como sempre faço. Encoxei uma loirona no metrô sem meu consentimento. Ela me estuprou, no âmbito filosófico do ato. A mulherada aqui é feroz, amigo. A machaiada perdeu a crista há tempos.

Vi uma Ferrari California azul-cafona. Toda mascada no flanco esquerdo traseiro, típica manobra de garagem que enroscou na pilastrinha. E fico com raiva desse desamor pelas macchinas. O povo caga pros carros. E pra gasolina e pro buraco dozômio.

Estou indócil com as possibilidades e a liberdade desmedida.

Final de ano e a oportunidade de passar um mês coçando as frieiras em algum canto do Brasil aponta cada vez mais no firmamento. Adivinha quem não empolgou ainda com a idéia? A tristeza toda desse negócio é que eu desapego tão rapidamente das situações e lugares que não consegui achar aquele sorrisão do regresso à terra-mater. Tô me esforçando, não brigue comigo.

Feliz aniversário de um ano, longe assim. Sei como é. Também me perdi de mim mesmo tempos atrás.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.