Três metades

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Uma metade minha anda feliz. Com sapatos que brilham e refletem a vida em uma angular distorcida. Longe de mim e feliz.

Outra metade, contemporiza de um lado. Bebe um vermute e fuma cigarrilha de folha de parreira.

A terceira metade, essa sim, insiste na regra dos terços: não toma partido; não se mete nessa de bipolaridade existencial. Insiste que comiseração e auto-piedade não vão servir de ajuda. Culpa a felicidade — tal e qual uma borboleta filha da puta — que sempre se evade de quem a busca com assombro.

E por mais que esse terço realista espere e saiba do vôo errôneo do inseto, ela não pousará no seu ombro.

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Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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