Champagne

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Minha fantasia na adolescência era levar uma mulher para uma cabana nas montanhas, com lareira, ambiente insinuante, som tranqüilo e a penumbra ideal.

Alimentei essa idéia por muito tempo. E já que eu era adolescente, sempre rolava as famosas variantes “agentes-secretos”, “ninfetas taradas” e “carrões esportivos”. E esses sonhos distantes geralmente ficam arquivados e desbotam com o tempo, como as belas pernas da modelo do pôster.

Interessante é que surgiu uma oportunidade dessas.

Campos do Jordão, aquele frio gostoso de inverno, névoa sugestiva lá fora. Cabana grande, madeira escura, lareira de pedras brilhantes. Levei aquela mulher para dentro, paletó nas costas para protegê-la do frio. Deixei o ínfimo aparelho de som tocando um jazz muito tranqüilo, antes de sair. Ela gostou. Na verdade sempre gostava de chegar comigo em casa. A privacidade nos deixava completamente insinuantes e perigosos. Sentou-se no sofá, enquanto eu fui pegar um vinho para fechar a noite. Olhei para a lareira acesa, para o sofá à sua frente e para aquela mulher perfeita.

Era a minha própria fantasia de adolescente, lapidada em muitos devaneios do passado!

Na geladeira nada de vinho, apenas um Grand Damme comprado no mercado. E quer uma coisa mais abusada que um mercado que vende champagne francês? Deixei a garrafa ao lado do sofá. Sorrateiro, roubei um longo e delicioso beijo. Deixei-a nua em câmera lenta. Penumbra, janelas grandes para o nada, madeira por todo o lado, lua quase cheia, amarelecida pelo nevoeiro inconstante.

Espoquei a champagne. Fitei-a com a garrafa aberta. Sem taças! Com um canto de boca arqueado ela sorriu: sabia que aquilo era tara de adolescente espinhoso.

O vinho leve frisava sua boca. Ela sorria. Olhos fechados. Ela estava encabulada, oras! Mui raro uma mulher virar fantasia, não é? Um pouco da espuma adocicada desceu delineando seu pescoço. Mais champagne. Outro tanto desceu mais além, contornando suas curvas em todas as direções. E é claro que minha boca seguia cada uma daquelas trilhas geladas.

Foi uma longa e demorada degustação: grand damme avec une belle damme. E a fragância que pairava no ar enebriava-me de um jeito jamais sentido. Era o ápice de um desejo, de um fetiche, de uma fantasia há tempos amadurecida na adega de sonhos especiais.

A plenitude disso tudo foi quando os dois corpos caíram extasiados ao chão, depois de um embate intenso e único. Ela dormira em meus braços. Eu apenas contemplava aquelas curvas, que por muito confundiam-se com a sombra que o fogo trêmulo formava.

Naquela noite não consegui dormir.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. Nota 10, repita mais vezes, a coisa é boa (nem que seja em um quarto de hotel, em seu quarto de dormir ou em outro lugar qualquer), o que importa é termos uma boa bebida, uma boa mulher e … uma boa idéia na cabeça!!!!

  2. É maravilhoso fantasiar não é..
    Nos inspira até a escrever e colocar estes insanos desejos em prática! Sorte sua que cosneguiou realizar esta fantasia!