Silva, Mozumbo & Associados

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Muzumbo era um negro grande e forte. Calado, na maioria das vezes, preferia sempre escutar e observar. Diálogos, só imprescidíveis. Roupas impecáveis, muito ouro nos acessórios e um escritório na área nobre comercial. Assim era o Muzumbo, visto por todos.

Silva, do Silva & Associados — um escritório de advocacia que fazia divisa com a sala de Muzumbo — encontrou-se no elevador com a secretária do negão. Começou um diálogo lugar-comum meteorológico. É claro que o advogado, ávido em suas curiosidades, perguntou-lhe qual era o “ramo” daquele escritório, uma vez que não tinha placa alguma na porta. A secretária disse-lhe que o patrão era proxeneta, trabalhava com intermediação e rendas percentuais.

É claro que o advogado ficou mergulhado em suas controvérsias ignóbeis: não sabia o que era um proxeneta.

Voltou, pesquisou o dicionário e descobriu o que seu vizinho aprontava: era um gigolô! Devia ser um notívago dissoluto, bicho-solto, desprezível de quaisquer veleidades de um verdadeiro apego.

Silva era diferente: trazia seu nome na sua empresa, era um homem direito e regrado, tinha princípios, fidelíssimo à sua esposa.

Dia desses Muzumbo bateu-lhe à porta. Precisava resolver algumas pendengas jurídicas. Silva, ávido e sagaz, perguntou para Muzumbo com o que trabalhava. O negrão apurou ser proxeneta, senhorio do sexo descompromissado. Silva negou a ajuda, “feria a consciência e os bons costumes”.

O negrão levantou-se, apoiou as duas mão na mesa de vidro do advogado e prostrou-se mais à frente, quase colando a cara com a de Silva:

— Pago em dinheiro e na hora que o senhor quiser.

Silva, que estava em vias de falência, percebeu que aquele confronto de costumes morais havia cessado na hora. Fecharam negócio.

Muzumbo cuidava dos encargos com suas senhorinhas. Silva livrava Muzumbo das encrencas, com negociatas sociais e propostas que o negão nem imaginava.

É claro que o varão do ébano sempre tentava Silva a participar de suas esbórnias. Apesar de bebericar alguns brandies no escritório de Mozumbo, Silva sempre resistia às solicitações, com um estoicismo sem vacilações. Forjara-se assim uma amizade, feita de respeito pelas diferenças: Muzumbo, um mulherengo nato, em eterno toque-e-foge pelas labaredas do sentimento; Silva, uma figura temperada pela solenidade do seu elo amoroso e fidelidade aplicada.

E esse era o contraste fabuloso que governava a vida dos rapagões: uma conformidade de duas áreas totalmente opostas, com um diferente ponto de vista sobre amor, paixão, sexo e prazer.

Tempo passou, Muzumbo acabou casando com uma mulatinha que tirara da vida fácil. Silva, do Silva & Associados, separou-se de sua mulher e agregou, em seu “Associados”, a lucrativa alcunha oculta de proxeneta.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.