Segredos plenos

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Eu era amigo de um radialista muito frustrado. Ele trabalhava em uma rádio católica e interiorana. Imagina você o perrengue que o infeliz passava: seis da manhã e seis da noite, ave-maria cantada. Inserção de músicas do padre Zequinha nos picos de audiência? Deu brecha, pimba! Disk-sucesso com pelo menos uma participação fake pedindo uma música religiosa: o sotaque italiano de padre importado era infalível, fazer o quê. Tinha também censura pesada em músicas de roqueiros encapetados, mas isso era coisa de praxe.

E por aí seguia-se, dia-a-dia, a peleia radiotransmitida.

O playback da rádio ainda era baseado nos rolões e nos clássicos LP´s. Nada de mp3 e programas automáticos, subentenda-se. Isso significava uma coisa bem interessante: a editoração era em tempo real, com um disk jockey ativo o tempo todo.

E esse meu amigo infeliz era o cara que pegava muitos turnos infelizes da madrugada solitária e friorenta. E pelo fato de ser solitária, sempre que ele podia, convidava um ou outro amigo para tomar uma cerveja lá no estúdio (“Venha aqui, mas passa ali no Popi´s e cata umas béras!”). Era uma forma de quebrar o nosso tédio.

O interessante da rádio é que a discoteca continha álbuns muito bizarros para uma rádio católica: Desde Danzig, Manoar e Gwar, até os clássicos Black Sabbath e velharias encapetadas.

“Quer ver um segredo mortal dos profissionais de radiodifusão jamais revelado?” Perguntou-me com um olhar amedrontador e lunático?

Não esperou minha resposta: “Siga-me.” Ele andava como um lider de alguma seita misteriosa e encafifada nos cafundós daquele estoicismo magistral. Adentramos na discoteca. Ele pegou o primeiro disco da primeira coluna da primeira prateleira. Legião Urbana. Estava fora da ordem alfabética. Fora da ordem de importância, Fora da ordem das ++ (mais-mais). Sobrepujava até a redenção dos discos religiosos. Acima de tudo e de todos, para resumir bem.

Retornamos ao estúdio, ele paciente, esperava o outro disco terminar. Rodou o rolão de reclames, posicionou o LP na picape, Entrou ao vivo: ” Madalena, da vila Pequena pediu, cá tocamos: Faroeste Caboclo. Com vocês Legião!”

Ele desceu a agulha, cortou o áudio do mic, levantou-se, acendeu um cigarro, enrolou uma revista embaixo do braço e declarou, na maior naturalidade e com uma cara de superioridade monumental que só um momento tal e qual permitiria: “A melhor música para uma radialista cagar sem ser incomodado. Oito minutos de paz no trono.”

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.