Saber amar

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Meu professor de geografia era completamente doido e isso prova uma das razões das quais adoro a geografia. O mais legal, porém, foi o dia em que ele decidiu levar as três turmas da sétima série para conhecer algumas formações geológicas de um parque espeológico qualquer.

Cheguei atrasado. A viagem estava marcada para 03h00 da madrugada e é óbvio que eu não consegui acordar antes. Droga, era uma viagem muito boa e cheguei no momento em que o primeiro e segundo ônibus partiam!

Consegui parar o último. E é óbvio que o último ônibus era o ônibus de uma das outras duas turmas. Senti-me deslocado de tudo e de todos. Andei pelo corredor, todo mundo conversava e ria e eu ali, isolado do meu habitat natural, da turma do fundão que sempre comandava a bagunça desmedida em viagens e afins.

“Oi Rena do Papai Noel, senta comigo!” Era Mariela, uma das garotas das bicicletadas abaixo. Salvou minha viagem naquele momento. Rena do Papai Noel, a do nariz vermelho, homônimo.

Mariela nascera na Alemanha. Seus pais viajaram à trabalho e a volta ao Brasil atrasou, o que fez daquela garota uma alemã nata. Ela era relativamente mais alta que as outras garotas, ombros de nadadora, corpo delineado e acima de tudo, muito bonita.

Conversamos a viagem inteira. Todos ali no ônibus adormeceram, o que nos deu privacidade para um longa e deliciosa conversa.

Abramos parêntese. Percebo hoje que em nossas bicicletadas eu sempre estava perto de Mariela. Compatilhamos minha barraca a maioria das vezes. E confesso que em algumas dessas vezes simplesmente eu fingia adormecer, apenas para observá-la dormir. A respiração dela era gostosa de ouvir, um ressonado leve, cos olhinhos que saltitavam rapidamente. Adorava aquilo. Fechemos o dito cujo.

E a escursão dos estudantes avoaçados chegou ao destino. Professor tagarelando, todo empolgado à frente e alguns estudantes que não davam a mínima atrás, saracoteando por estalactites e estalagmites. Alguns espeleólogos experientes nos acompanhavam, mostrando detalhes interessantes das formações. “Sigam-me, entraremos em um salão restrito”. E seguimos aquele guia. “Dentro deste salão existe um silêncio e uma escuridão absoluta” E era mesmo. Ele pediu para que todos apagassem as luzes e se mantivessem quietos para perceber a intensidade do momento.

Apagamos as luzes e ficamos quietos de verdade.

Mariela aproximou-se de mim, apagou a lanterna e me abraçou, meio de lado. As luzes se apagaram, como uma cidade que se prepara para dormir e o silêncio e a escuridão tomaram uma forma majestosa. Mariela moveu-se para minha frente, ainda abraçada. subiu sua mão por minhas costas e me apertou em um abraço novo e inusitado.

Senti sua respiração a milímetros do meu rosto. E ela me beijou.

Um beijo delicioso, inusitado e até esperado demais. Eu percebia claramente seus lábios tremulando. Percebia que ela me abraçava com uma força e intensidade assustadora. Revidei, é claro, e a abracei forte.

Problema é que naquela escuridão e silêncio e intensidade, Mariela descompassou na hora de respirar e deu um breve e delicioso gemido. Foi uma complexidade de ruídos muito interessante: um estalido de beijo com expiração sem fôlego e meu uh! no contra-ponto. Tudo bem baixinho e rápido, é lógico, mas suficiente para que o salão inteiro, que até então se concentrava no incrivel som do silêncio, começassem a desordem caótica de ruídos e luzes.

O professor foi o primeiro a ligar a lanterna para ver o que estava acontecendo. todos ligaram e começou um bafafá danado para descobrir quem estava beijando quem. A cena foi deliciosamente apimentada porque ninguém sequer desconfiou dos beijoqueiros.

Saímos e, entre risadas e suposições, eu entreolhava Mariela. Ela estava extasiada e surpresa com o que acabara de acontecer. Passeamos de teleférico, andamos por trilhas e no final do dia já estávamos todos exaustos dentro do ônibus, pronto para voltar.

Meus amigos me esperavam dentro do primeiro ônibus, mas misteriosamente voltei com o terceiro, deslocado e desconhecido, da turma da Mariela. Sentamos lá no fundão. Conversamos alguns minutos. O ônibus estava novamente em um silêncio embalado por sonhos de estudantes cansados. Mariela recostou em mim e fechou os olhos: dormira a viagem inteira abraçada engalfinhada em meus braços.

E naquela noite me senti a pessoa mais completa e feliz do mundo.

Tempos depois namoramos. Não lembro ao certo de um pedido formal de namoro, apenas nos encontrávamos enamorados.

Minha segunda namorada, enfim.

Ao final do ano Mariela decidiu que estudaria todo o ensino médio em um colégio-cursinho preparatório na capital. E novamente me vi perdido. Mariela sabia que estudar na capital nos traria o desamparo de um namoro firme e sólido. Nos veríamos poucas vezes na semama, uma ou duas vezes, quem sabe. Mas ela estava decidida. “É Direito o que eu quero e você sabe que é concorrido”. Sim eu sabia. O meu amor era concorrente desleal.

Nosso namoro durou dois ou três meses. Víamos pouquíssimas vezes.

E invariavelmente nos tornamos perfeitos amigos, novamente.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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