Relacionamento

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A paixão se segue e o amor — o bichinho-surpresa — toma conta de tudo. Enxota o que antes escaldava a vivência, solidificando a razão e equiparando sua emoção. E depois?

Depois as afinidades se encontram, a realidade aflora instintivamente, destruindo a beleza da perfeição. E é aqui justamente que entra a arte de se pôr fim à um relacionamento. Não que isso possa ser considerado arte, dado a dor e solidão que a singularidade possa provocar. Mas há um tempo certo para acabar, assim como existe o tempo exato de se começar. E errar o momento certo de se terminar é muito ruim. Pior, muito pior do que errar o tempo para se encontrar e amar. Adiar um relacionamento é relembrar de ruínas desgastadas e fatigadas pelo tempo. Não fica, infelizmente, a construção harmoniosa que se criara. Apenas rescaldos.

E o medo faz adiar, muitas vezes o que se vai tornando lufadas de esperanças esgarçadas. Há ocasiões em que o impulso do rompimento é imanemente contido por uma estranha (ou seria segura?) inércia que não nos mostra a razão de se adiar. E o fim torna-se explícito, mas mascara-se de maneira indolente. Sentimentos confortáveis e bons cedem seus comprometimentos com o rigor de gestos degenerativos e por muitas vezes enfastiantes. E o egoísmo mescla-se com a incapacidade da visão conjunta. E os fatos gritam.

E gritam.

Existe sim, o momento certo para um fim de relacionamento. E, como se é de esperar, na maior parte das vezes este tempo passou há tempos. Podem ser horas, dias, meses, até anos. Mas passou. O amor desvencilha-se, a lânguida sensação de rompimento instaura-se. Para sempre. E não tem palavras, gestos, carinhos. E mesmo assim se segue em frente.

Errar o tempo é comum. E o último momento de se escapar da derrota lamuriosa é no momento certo. Depois o desbarato nos faz carregar os restos de um relacionamento que não soube nunca, acabar.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>