Quando o tempo te pega de jeito

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Existe uma coisinha muito interessante dentro das nossas memórias inesquecíveis: o reavivamento das lembranças. Hora ou outra uma visita, um passeio, um beijo, qualquer coisa boa aparece, do nada. E isso nutre um ciclo de continuidade de dados inesqueíveis. E, a cada relembrança, as coisas ruins somem e as boas enaltecem-se.

A menininha do primeiro beijo fica cada vez mais bonitinha.

O primeiro soco no nariz fica cada vez menos dolorido.

Mas tem umas lembranças que simplesmente somem. Talvez levada pela onda gigantesca de novos-dados instantâneos, ou por falta de fosfosol na cachóla, vá saber. Lembranças que até eram importantes, mas que não sobreviveram.

Faleceram intruncadas em uma rede complexa de memórias derradeiras sobrepostas por sentimentos novos e sensações disconexas.

Aí quando se tenta lembrar dessas, apenas a imagem de um recápe descolorido e pálido, asfaltado, encobrindo a hora vivencial, surge, como um aviso de que nada mais restou.

Muito rápido.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.