Quando o #FoMO leva fumo.

Curtir Aguarde... descurtir
 
9

Eram as linguiças mais estranhas que eu já tinha visto. Muito grossas, pálidas. Não serviriam nunca para um bom assado. Mas vá lá, o propósito era desmanchá-las para um molho ragu. Tomo por tomo, uma a uma, lá se iam tripas para um lado e recheio para outro. O trabalho seguia um ritmo bom e constante, até que de uma das linguiças recém abertas um pequeno ouriço caiu, desmaiado em uma asfixia densa. Ele ainda estava vivo, desfalecido e inerte. Apertei o delicado abdômen do animalzinho até que a respiração sincronizasse e o monstrinho voltasse às operações normais. Um banho de agua morna de torneira da pia e escova de dentes devolveu a fluidez dos espinhos. 

Isso aí foi meu sonho de ontem.

Minha interpretação José do Egito é simples: #FoMO.

#FoMO, para quem não conhece, é a sigla de Fear of Missing Out,  ou medo de estar perdendo algo.

O meu medo é claustrofóbico e agonizante. Minha vida é criativa e toda vez que uma oportunidade vaza pelos meus dedos eu tenho uma síncope desesperada. Estou perdendo muito tempo e não sei mais como retomar o caminho certo. Ou até se existe esse caminho, não sei mais.

O relógio não pára. A vida é um cavalo que peita tudo e sorri com aqueles dentão que é mais do que sabido que mordem, ah sim eles mordem. O desgraçado é herbívoro e morde gente. A vida morde gente. A confusão é constante. O caos mistura todas as cores mas chega um ponto em que tudo fica um cinza meio avermelhado, uma cor que é a mais feia do mundo. Eu a chamaria de ‘estabilidade vivencial’.

Quem tem estabilidade, metodologia e auto-disciplina já morreu e não se deu conta. É difícil se dar conta quando tudo está impecavelmente automatizado e redondo.

A minha lista-pessoal-de-coisas-a-fazer (V.2017 revisada e corrigida) andou pouquíssimo esse ano. Acertei o bolão-pé-na-cova com a previsão de mudança de andar do Fidel, comecei com as fuçanhices de Arduíno. Mas muita coisa ficou parada. Outras nem começaram.

E novamente eu me vejo perdendo tempo e esgotando crivos legais na rotininha massante. É quase um grito entalado, é quase um ouriço amordaçado por uma tripa semi opaca, cercado de recheio de linguiça. A força acaba e o marasmo te engole. E tudo começa a ser menos resmungos e mais resignação. Eu fui passear no Brasil esses dias atrás. O Brasil está nessa de #FoMO, todo mundo se resignando, não tem mais luta, aquele brilho no olhar se parece mais com um compadecimento de baixar de cabeças e de que nada, mesmo com a força de uma ombrada no ar denso do contra-partido, irá resolver patavina alguma.

O mundo segue horrivelmente bem. Os menores índices de violência e desnutrição, os menores números de mortes em guerras, educação bem, obrigado; e não sou eu quem diz, é um gogó-de-ouro de Oxford quem canta a pedra. A nítida impressão é a de que tudo está desmoronando quando na verdade está se estabilizando de uma maneira mais humanizada.


Eu tinha uma conta no Instagram que era só um depósito aleatório de fotos sem muito sentido. É essa conta ai do lado. Eu resolvi modificar algumas diretrizes e regularizar a postagem de modo que tudo recebesse uma constante mais harmónica. E que combinasse com um estilo de fotografia que eu mais tenho medo: retratos de humanos.

Meu amigo, se existe alguma coisa que é pior do que coentro, eu seguramente diria que é pedir para um cidadão aleatório uma foto. Aquele um-a-um do contato com o desconhecido é uma facada em qualquer ego. Principalmente em uns países onde o instinto de auto-preservação é mais acentuado e sabido.

Mas vá lá, a conta agora é toda monocromática e sempre tem um ser humano dando sopa nas fotos. Tem mais metodologia, tem mais sensibilidade, tem mais estilo composto e contínuo.


Aliás, voltei ao Twitter. Mas modo stealth, trás-do-toco, corujando, munhecão-de-pau no pézinho-de-borracha rádio escuta. E vou te dizer uma coisa: o demônio que habitava as profundezas dos comentários de YouTube agora colocou os dedinhos podres na rede dos 280 caracteres. Que antro de gente chiliquenta. É a ‘problematização’ a palavra do ano de 2017.


2018 é só mais uma marca temporal, não vai reiniciar a sua vida, irmão. Seus desejos são constantes, suas frustrações, desenfreadas. Um número não muda o destino daquele caminhão destrambelhado e sem freio pela ladeira da incerteza. Eu preciso de mais forças para continuar o que não deveria nunca ter começado e que agora não tem como não terminar mesmo que isso signifique sacrificar o que era para ser bom e eterno. O mundo é um monstro incessante que passeia as pontinhas das unhas pela lataria e o primeiro que arrepiar ele esmaga.


Ainda em redes sociais: Spotify é rede social, sim. E eu aprendi muita música boa ali. Ottis Redding por exemplo:

Este mês de dezembro de 2017 fez 50 anos que morreu o Otis Redding. Tinha 26 anos de idade, era o mais extraordinário cantor do mundo (praticamente, porque eram quatro), e estampou-se num acidente de avião. (os outros três eram o Frank Sinatra, o Jimmy Scott e o Dietrich Fischer-Dieskau.)

Aliás, tenho uma playlist que se tornou um monstro de 782 músicas para se tocar na sala de estar com seus amigos e pingas em copinhos pequenos:

Meu Spotify tem um problema sério de temporalidade comigo. Minhas playlists semanais são uma salada-russa e minha cápsula do tempo me define entre 20 a 94 anos de idade. Vai vendo.


Espero que nada piore muito nesse tempo que vem mais adiante. Eu juro que tento segurar as rédeas o mais próximo do cavalo, mas as vezes os caraguatás enroscam demais no gibão e não tem peitoral que não se espinhe.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.