Qualquer coisa.

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Eu era aquele cara do potencial frenético. Eu tinha moral e as pessoas depositavam fé nas minhas ideias rôtas. Escrevia muito, lia muito e pensava muito. Nunca fui inteligente e demorava pacas para entender situações literais.

Não sei citar os literados. Conheci Chomsky porque tem um nome de mordida de chocolate crocante. Aliás não o conheci: apenas sei que é um falastrão da ciência cognitiva hodierna. Hobsbawm eu conheci tarde demais, no cemitério aqui perto de casa. Não só conheci Hobsbawm, como também Marx, Caulfield e Adams. Gostei do Caulfield justamente por causa da sua lápide. Douglas Adams tem um vaso de flores repleto de canetas. Marx é aquele gordo barbudo e falido com uma escultura do tamanho do gigante amigo do Harry Potter. É, eu gosto de cemitérios.

Eu citava F.Pessoa. Era um cara deprimido e escrevia coisas que eu gostava. Nada demais. Fernando Pessoa era um babaca. Genioso.

Ontem escutei uma coisa que não me incomodou, mas que fez, indiretamente, perceber o quanto afundado em ilusões estou. Era parte de conversa dirigida a outrem e que falava justamente que ‘existe o tempo de produzir e existe o tempo de usufruir’. Não há como usufruir de algo não construído.

Eu não construí nada. Nem personalidade.

Fui sombra e andei em pastagens erradas. Pulei mais forte e longe do que realmente podia e o estiramento me faz mancar por muito tempo. Sou resíduo de uma geração babyboomer que vê na geração Y a falência dos ideais. Não quero mais brincar de modelagem e tentativas de acertos.

Eu tenho uma convicção idiota e descobri que consigo tudo o que preciso. Só não consigo o que quero. E a diferença entre essa dialética obtusa é a infelicidade plena do fracasso desastroso.

Chegou a hora de parar um pouco e sumir do quotidiano. Mudar e não revolver mais a areia do fundo. Minha vida é uma falácia complexa que eu mesmo edifiquei.

Tentarei por em prática aquele discurso pedante de ‘ter que retroceder para pegar impulso’. Como sempre fiz. E, como sempre, nunca funcionou.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

3 comentários

  1. Sei que pensar é “de grátis”, v.g. o subtítulo que acompanha o título madcap (a mi no me pagan…). Mas ouça um velho eternamente afundado em ilusões: pensar demais antes de dar a bicuda permite que a vida te encha de diretos na venta! Já tem tração, bloqueio, guincho e pneu cravudo, então encare a trilha que vier e birrépi!