Prazer, Rodolfo.

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rodolfo.jpgEsse aí da foto sou eu. Feio pra burro. Mais esperto que inteligente. Apresento minha vida aos sete anos de idade. Antes disso quase não lembro de nada interessante na minha vida. Aliás, duas coisas idiotas: Um soco que levei na cara e a minha primeira namoradinha.


O soco foi uma briga na pré-escola. Era contra o Diogo, um ogro grandão e e inchado de tanto comer salgadinhos. A gente se desentendeu, a situação ficou insuportável e eu o empurrei. Ele me deu um direto no nariz. Eu nunca entendi como ele aprendeu a socar uma pessoa com 6 anos de idade.

O bom de tudo é que a gente retomou a amizade dias depois e nunca mais o vi.

Até semana passada, quando ele apareceu nos jornais como traficante preso pela polinter.


O caso da minha primeira namoradinha foi muito pior que o soco. Eu disputei com o Vinicius, um colega de classe, a mão de uma bela donzela. A disputa era simples: quem corresse mais que o outro e a pegasse, também na correria, seria o dono da mocinha.

Eu ganhei, ele ficou bicudo e foi embora. Ela olhou para mim, eu olhei para ela. Ambos com cara de ué. Não sabíamos o que fazer. E meu namorico acabou com o recorde de 12 segundos de duração.


Isso aí foi a minha vida até os 7 anos. Nada de mais.

Agora com 7 anos a coisa mudou de vento: conheci o inferno, por uma das empregadas domésticas que fazia às vezes de babá-copeira. Sim o inferno. Até então eu era um menino corajoso, destemido e invencível. Aquela empregada tinha nome Jurema, morava em um pequenino sítio e contava diariamente peripécias e aventuras de seus irmãos.

Eu adorava aquelas histórias. Eram carregadas de um ufanismo perfeito. Moravam em rancho de chão batido, foto de casamento colorizada na parede velha e escura. Mas tudo ali era empolgante. A panela de ferro carregada de dobrões e réis velhos. Herança devastada de um avô descuidado.

E Jurema apresentou-me o inferno.

Contou a história de um pobre homem da comunidade. Foi roubar milho à noite, entrincheirou-se na plantação, começou a quebrar as espigas. Bom homem não era, tinha lá suas maracutaias e desatinos que o condenavam, E o capeta apareceu em sua frente, oras! O Homem correu, mas o diabo é forte e sagaz. Pegou-o pelos gargumilhos e o abanou, como se fosse uma marioneta. Pobre homem aquele! Jurema ficava aflita, “Olha, ate arrepia meus pelos do braço!”.

Jantar e Jurema foi embora. Meu quarto ficou escuro demais aquela noite. A cama tinha um espaço vazio ensurdecedor embaixo. O armário, lugar que sequer admiti existir qualquer monstro (monstros, há, valha-me, nunca acreditei mesmo!) Agora era um lugar de trevas. Trevas cercando-me. Aquele homem fazia coisas que não deviam. O diabo apareceu-lhe. Eu fazia muitas coisas erradas. Qual moleque não faz coisas erradas! Eu andava com uma corja de bandoleiros naquela pequenina vila!

Droga, perdi minha invencibilidade espiritual aos sete anos de idade. Conheci o demônio, por tabela. Sabia que ele poderia estar na espreita, fitando cada merda que eu fizesse. Mas o demônio ali era furtivo e cauteloso. Porque qualquer demônio sabe que um imprestável menino de sete anos possui muito mais anjos da guarda que qualquer outro.

Jurema… Ah, Jurema, como às vezes tenho vontade de te esganar. Ou te agradecer. Não sei ao certo.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. Adorei a história! A Jurema devia ser daquelas que cantavam canções de ninar como “boi da cara preta” ou dizia que a cuca ou o homem do saco vinham te pegar…ahahahah