Pequeno conto do assaz-sagaz

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Na cidade velha, em um catre mequetréfe, descendo as vias escuras do porão do bar do Nêgo, tem um velho quismeqüique que bate a lata no chão. Grita uma zombaria funesta, sem eira nem beira.

Chama mulata de mulata, viado de baitôla e criança de pestelhôca.

Dia desses Orlindo jogou moeda na lata. Tomou-lhe a pataca nas ventas. “Minha lata é pra comida, lazarento!”

O velho era chato de todo tempo. Sem graça até. Não mereceria mais do que 2 linhas de crédito em túmbalo.

O que conta foi o baião que o cunhépe cantou dia desses:

Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru.
Banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju.
Cenoura, jabuticaba, guiné, galinha, pato e peru.
Tem bode, carneiro e porco, e se duvidar inté cururu.
Tem maxixe, cebola verde, tomate, couve e chuchu.
Almoço feito na corda, pirão mexido que nem angu.
Tem súvete de jaú, caldo de cana e mandacaru.
Se te pego minha fofinha, te descabelo, trubufu!

Uma balzaca corpulenta, de sorriso estrábico e olhos esbugalhados sorriu. Sabia que era para ela o disparate.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.