Os caçadores virtuais

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Meu meio social virtual deixou de ser politizado desde o momento em que houve a dança da magna-cadeira presidencial brasileira. Não sei bem qual foi a razão, mas o foco geral degringolou da política ferrenha para alguns momentos pontuais e sequenciais: zica; gente pedindo ajuda sobre empregos no exterior; a olimpíada no Rio; caçar Pokemon e perseguir quem caça pokemon.

Eu queria escrever sobre PokemonGo há algum tempo mas o Rodrigo Motta do Trendr já explicou de forma bem lúcida a ideia por trás do app e a historia da franquia Nintendo.

A minha rede tem basicamente três tipos de especialistas em Pokemon: o entusiasta early-adopter que baixou o jogo minutos após ser disponibilizado para download; o cara que é contrário ao jogo e; a tia que ainda não tem a ideia clara do que seja essa desgrama.

Tá vendo essa foto aí em cima? São dois moleques caçando os demonhinhos no centro de Helsinki. Fácil de reconhecer: movimentos do dedão, celular quase à 90º, esforços repetitivos e o cabo de bateria extra conectado na mochila. O mesmo comportamento pode ser visto no centro de Londres. E em algum lugar aí perto da sua casa.

Eu instalei o jogo. Trabalho com crianças e preciso entender o mercado e o mundo em que elas vivem. Tem duas ‘academias’ e doze ‘poqueparadas’ aqui no parque. O dono de uma das academias é um estagiário de 14 anos. Que bate em todo mundo. O CEO tentou por 3 dias tomar a academia e não conseguiu. Em um acampamento – com 3000 ranhentos há 2 semanas atrás – a empresa que cuida da cafeteria gastou £30 libras comprando iscas para a pokeparada que fica em frente ao café. Plaquinha na frente, à giz: Lure All Day. Quem não conhece o jogo estranha a chamada mas ignora. Venderam 40% mais vitaminas e sucos do que o esperado.

O jogo não é complexo. Não tem muito desafio e pode até parecer chato, vai ser repetitivo. Mas é incrivelmente social. É o que os fãs do desenho e dos jogos no começo do século queriam: capturar seus próprios Pokemons tal e qual o Mr. Ash.

Essa placa é uma pokeparada. Esses dois elementos seguiam em direção à uma academia e pararam para recarregar pokebolas. Notem a agressividade das marcas de cavalo-de-pau do menor de camisa azul escuro.
Essa placa é uma pokeparada. Esses dois elementos seguiam em direção à uma academia e pararam para recarregar pokebolas. Notem a agressividade das marcas de cavalo-de-pau do menor de camisa azul escuro.

Li muito comentário de gente criticando o jogo por: ser uma atividade idiota; ser uma fonte de coleta de dados pessoais; pokemon em japonês significar demônio e foi o diabão quem programou o programa para capiturar capirotinhos selvagens; só tem zumbi caindo em rio e sendo assaltado.

“No meu tempo isso aqui era tudo mato; no meu tempo a gente jogava bolinha de gude e polícia-ladrão; no meu tempo eu capturava as cocótinha nos bailinho de garagem”

Eu tenho quase certeza que no seu tempo, em algum momento, as palavras “caça-tesouro” ou “gincana” cruzaram seu caminho. Caça-tesouro era a mesma premissa: um monte de dicas, um mapa obsoleto e mal desenhado; meia dúzia de cocada como prêmio para a equipe que ganhasse. Aliás, equipes que provavelmente tinha singelos nomes como: Equipenico, Equipepino, Equipeidança.

Alguns mais excêntricos participaram de corridas de orientação, com bússolas, prismas, mapas topográficos. Eu caçava trilha e cachoeira com um GPS e tracklog desenhado no Google Maps. Muda o meio, a mídia e o cerne continua ali, esperando para ser dilacerado.

A tecnologia facilita e o ciclo se renova com as gerações que se tornam previsíveis. O novo é cada vez menos aceito quando você envelhece. A vida é assim. Só resta a crítica e a dificuldade de aceitar o inevitável.


Nota do autor #1: A parte técnica do background do jogo é, sim, um sistema de coleta de informações em tempo real. A Niantic é uma monstra em geotagging e coleta de informação visual. Eles têm uma coletânea de pokeparadas e ginásios baseados em dados coletados em um app chamado Ingress. Eles coletam as fotos do momento em que seu Pokemon foi capturado. Coletam o seu geoposicionamento. Coletam 95 informações diferentes a cada vez que você liga o jogo. Poderíamos conversar sobre datamining e captura de dados anônimas em redes sociais mas o assunto é tão longo que não serviria apenas como N.A.
Nota do autor #2: Este texto foi publicado originalmente aqui.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.