Os 40 anos da equipe Williams – e como fui parar lá

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A Williams completou 40 anos de idade. Em um evento gigantesco, conseguiram colocar na pista – e ao mesmo tempo – 14 versões diferentes dos monopostos históricos; um show único e impressionante.

Uma semana antes do GP de Silvertone o circuito sentiu nas zebras a pressão de 40 anos de história correndo ao mesmo tempo. Uma confusão sonora, tons musicais desalinhados pela diferença de litragem, rotações por minuto e tipo de admissão. Borrachas diferentes de pneus compostos, deslocamento de ar empurrado por aerodinâmica simples, por efeito-solo, por asas projetadas detalhadamente em computadores.

Frank Williams e Patrick Head compareceram ao evento. E isso foi outro detalhe histórico, uma vez que os dois estavam afastados e fora do circo. Aliás, Frank estava hospitalizado há um tempo e Patrick veio diretamente da Sicília para o evento.

No grid a linha era gigantesca: clássicos como um March 761/7, Williams FW06, FW07, FW07B, FW08B, FW10, FW11, FW14B, FW15C, FW18, FW19, FW34, FW36 e a novíssima FW40 de 2017.

O Heritage Team — eu chamaria de Dream Team — trabalhou duro para trazer à vida todos esses carros. Especialmente o monstro FW14B: um carro que estava parado no museu Williams desde 1992. É um projeto muito complexo e instável: suspensão ativa, eletrônica rudimentar, conexões por portas paralelas de impressora, jumpeadas. Quem desenhou já está aposentado e a moçadinha html+php de hoje em dia não tem a mínima idéia de como recompilar as centrais daquele bólido.

Karun Chandok foi o nome por trás do volante. Acelerou forte, derrapou nas curvas, perdeu tração e confiança, ficou eufórico e deu entrevista tremendo. Felipe Massa pilotou o carro mais estranho e interessante da leva: o FW08B.

Felipe massa pilotou o FW08B: tração, grip e câmbio impecável; só perdia na troca de pneus.

A foto histórica, na linha de chegada, contou com Nigel Mansell, Nico Rosberg, Keke Rosberg, Mark Webber, Damon Hill, Pastor Maldonado, Karun Chandok, David Coulthard, Jason Plato, Martin Brundle, Felipe Massa e Lance Stroll na linha de pilotos. Frank, Claire Williams e Patrick como cabeças, Sean Bratches e Ross Brawn como chefes de equipes.

As usual, Silverstone mostrou o que tem de melhor para um encontro desse nível: chuva ineterrupta por 50 minutos para criar a atmosfera clássica das manhãs de F1 na televisão. Muito spray e o cheiro indescritível de pista molhada para criar a experiência perfeita.

E foi na chuva que a lenda tomou vida novamente. A equipe de mecânicos passou a manhã inteira tentando resolver um problema eletrônico do carro e a ansiedade pairava como uma dúvida no ar. Ninguém podia afirmar se o carro estaria na pista. Massa entrou com a FW088, a BMW 2002 Le Mans fez umas graças.

Mas um rugido monstruoso dos boxes calou a arquibancada: o 148 começou a se mover. A torcida imediatamente ficou em pé, aplaudiu, gritou. Claramente a velha guarda presente se emocionou, dava pra ver no rosto de cada um que esperava pelo momento. Karun saiu em primeira, rasgando a linha. A primeira volta foi uma abortada, com algum problema sério e finalizado com um giro cortado e ofegante. Voltou para os boxes sem velocidade.

Cinco minutos depois a cena se repetiu: saiu mais feroz e afiado com giro alto.

E quando o carro fechou a Vale para entrar na Club sem abortar para os boxes os pêlos do braço arrepiaram. Pegou pesado na saída da chincane, o carro soltou a traseira, Karun corrigiu, entrou na Pits Straight com força e o V10 Renault urrou como um gigante recém-liberto.

A aceleração precisa, as trocas de marcha perfeitas, a reduzida de duas marchas para finalizar a Abbey, a velocidade cronometrada nos relógios de pulso só confirmavam que o carro estava quase chegando no limite. E todos perceberam isso.

Minha experiência pessoal foi supreendente. Eu nunca imaginaria ver esse ícone funcionando. Melhor, jamais imaginaria ver ao vivo, perto de mim, sentindo o chão tremer a cada acelerada do V10 há 5 metros do meu pé. A suspensão subir e descer no check de partida. Ver Frank, Mansell, Massa, Keke, Hill, Brundle. Ao vivo.

Como disse Manuel bandeira:

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

A galeria abaixo não tem legendas, nem informações: leve as fotos como uma licença poética e um pouco de criatividade emocional 🙂

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.