O ubi campi

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Com a idade – que só damos conta que ela existe depois dos 25 – adquirem-se novos vícios deliciosos. A pantufa fofa; o conhaque aquecido na mão; o eau-de-vie delicado; o sono da tarde ensolarada de sábado; a culinária refinada; o carro esportivo que não corre como poderia; a música curada fora das dez-mais-mais do canto do seu rádio.

E depois, quando a pátria amada não passa de um passado cada vez menos retumbante, descobrem-se outros. As banalidades que antes eram perpétuas e adquiridas no papel – notaram-se muito mais exóticas em confiteor sagrado. O sol que chamusca nos cinco minutos de exposição. O pastel da Viçosa ou o pierogi do Grovski. A falta de trato no português falado que solércia.

O riachinho tem água cristalina. Mas enregela os cambitos. O sol é, mas morre tarde demais no verão. E cedo demais no inverno. E o fino trato da língua portuguesa me dá um medo terrível de perceber que não posso flanar longe dela, ou pior: esquecer um idioma tão lindo e complexo. O inglês eu desisti. Não se pode almejar Hemingway. É uma gramática construtiva de caráter inverso. Não flui, não segue as canaletas naturais em uma descaída natural. Igual ao riachinho das águas cristalinas.

Evito a nóia. Aliás, a nóia tem nome: nostomania. O banzo, o chilique. Era o que eu queria. Era o que eu queria? A liberdade é linda porque é flexível. Volto quando quiser. Fico o quanto puder. Vão-se políticas e culturas, ficam os discursos ababalhados.

Eu não quero. Querer eu quero, mas não estou com essa vontade toda. Então não quero. Venha, vai ter bolo. E o resto do mundo? E a familia? Somos todos conectados. A teleinformática moderna resolve.

A gramática mudou e eu fui apenas um filtro transmeável e embaciado sem retenção de nada que poderia ser novo. Não quero perder o trato. E, sobre a fala, foi preciso esperar quase meia-vida para perceber que não consigo respirar longe dela.

A vida é cheia dessas presepadas. É incrível ter a capacidade de aprendizado e compreensão, de saber exatamente o tanto que passa e o tanto que fica. E não embrabecer mais por ronha alguma.


*O ubi campi – latino, significa “oh! onde estão os campos!”
Exclamação de Virgílio para exprimir a nostalgia dos campos e da pátria.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.