O terror é um comportamento genuíno

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O terror é um comportamento genuíno humano. Uma das formais mais surpreendentes de dominação e imposição de força. A essência da maldade humana. Ou a essência humana sem quaisquer limites.

O menino com a lupa queimando formigas. O cururu chutado ao tentar atravessar a rua. A bombinha no rabo do gato. O homem-bomba, o suicida fanático.


O terrorismo inglês atual me afeta de algumas maneiras bem distintas. A primeira é a questão de segurança, a roleta aleatória de estar ou não presente em uma situação desgraçada dessas. O Ataque de Westminster, por exemplo: Passei no local do acidente meia hora antes, na caminhada aleatória pós almoço. Se eu tivesse presenciado a cena, teria socorrido as pessoas por questões humanitárias e emergenciais, e quem sabe nem pensaria que os 82 segundos da ação era um ataque terrorista.

Essa é a beleza de Londres. O carry on, o foda-se o mal, tentemos o bem.


Ontem teve um ataque terrorista na London Bridge (que não é a ponte da foto acima). 8 minutos. Passei perto, novamente, umas 4 horas antes. Uma amiga estava na ponte ao lado, no horário do evento.


Isso me afeta porque envolve a rotina diária do meu trabalho. Amanhã, segunda-feira, vai ter reunião de deploy, de segurança, de nível de ameaça, da polícia de transporte, sobre-aviso da equipe de crise. E eu não gosto que mexam na minha rotina. Aliás, a segurança da entrada do meu prédio vai estar infernal. E vai afetar os meus horários de trabalho.

Quinta eu levei um baculejo no aeroporto. Estava com um tripé grande e a bolsa do infeliz parecia sabe o quê? Uma capa de rifle. Eu não sabia, mas os dois policiais armados até o fundo da sola do sapato sabiam. Tive que explicar tudo, esperar o chefe de press do aeroporto me resgatar na salinha sem janelas. Esse tipo de situação afeta meu trabalho.

E afeta o meu humor.

O terror é um sentimento solitário. É um sentimento amargo, impetuoso. Não combina mais com essa vida morninha de Londres.

Eu gosto de Londres por ser uma cidade segura. O índice de criminalidade e o controle de emergências é incrivelmente baixo para uma metrópole tão grande e velha. A minha paz de andar à noite nas ruas do centro com uma câmera na mão é uma das melhores sensações do mundo. E ela não se abalou. Não está nem um pouco comprometida com os facínoras do terror. Continua afiada e determinada.


O brexit, a incerteza do modelo de convivência internacional, os mísseis norte-coreanos, os russos com suas estranhezas. O medo do refugiado, o imigrante ilegal desesperado, o americano cantando despacito em espanhol no smartphone fabricado na China. E querendo mandar os latinos para o buraco de onde saíram. Os ânimos mundiais estão pululando na pele como acnes de puberdade. A estabilidade não existe e a paz é um peido podre no forno holandês. Até o Brasil tem um terror cheio de pó nas beiradas do nariz, carnavalesco, com a melhor vista do morro.


A hora mais escura é a hora mais dura. Onde todas as bandeiras são em vão. As bombas, os gritos, os tiros. A multidão junta, a multidão em cada um. Esse preço que sempre se pagou, e nunca se recebeu nada em troca. Ela não precisa ser a hora tardia nem a hora vazia. 

Deste vídeo maravilhoso do Renato Cabral, de 2013. Ele é um vídeo coringa. Serve para qualquer situação de terror, nacional, internacional ou político.


Quase cem anos depois de brigas sangrentas (e com uma visão politicamente incorreta) é fácil admitir – e perceber – que um conflito de civilizações vem comendo as margens em uma pororoca fenomenal. Não tem muito o que fazer, esses efeitos naturais são fortes, rápidos e sem prenúncio. E a Europa atual vai se esvoaçando pelo ar como fuligem leve de uma folha de carvalho recém incendiada.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>