O telefonema da madrugada

Curtir Aguarde... descurtir
 
0

Sou psicólogo, conselheiro e amigo do peito nas madrugadas. Só nas madrugadas. Abro meu escritório remoto sem fio toda meia-noite, quando as camas estão começando a esquentar e o pior, estão somente com uma pessoa solitária e amargurada.

E não muito raramente toca o celular. É uma amiga triste, que não acha razão de estar naquele estado. Outrora, amiga que brigou com namorado. E o escritório, digo telefone, não pára.

Madrugadas atrás a realidade plagiou a ficção Verrissimoniana. Telefone tocou, atendi. A voz aveludada, macia e suave, inconfundível. Conversamos sobre como a vida era injusta, como os homens são canalhas, como as mulheres são facilmente ludibriáveis. Papo dor-de-cotovelo mesmo. Ela queixava-se, eu dava razão. Massagem no ego para um bom resto de sono na madrugada da moça.

Este é o meu lado canalha, diga-se de passagem.

O interessante da história foi quando ela perguntou-me o que faria hoje. Rally, respondi. Alguns segundos de silêncio, outra pergunta: “Quem está falando?”

A voz dela era perfeitamente passável pela voz de uma amissícima. Por suposto a minha também. Problema que ela não era ela, se é que você me entende.

Toda a tranquilidade que moldei e remoldei no ego da moçoila foi ralo abaixo. Desligamos polidamente.

Madrugada passada ela ligou de novo. Disse que, apesar do engano, até que a conversa foi tenra e lisongeira. E conversamos mais.

Enganos do destino. Engamos acertados, diga-se de passagem.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>