O seminarista

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Certa vez encenei uma peça de teatro. O Seminarista, de Bernado Guimarães. Atuei como Eugênio, o filho de um fazendeiro abastado. E foi nessa brevíssima época de teatro que conheci Janaína, uma linda e refinada senhorita que contracenaria comigo.

Janaína, na vida real, era filha de um poderoso fazendeiro. Estava encenando Margarida, a filha de peões da fazenda.

Era peça de teatro do colégio. Quinta série. Na verdade fomos obrigados pela professora de literatura a encenar uma peça inspirada em algum clássico da literatura brasileira. Precisávamos de nota, a professora era uma freira e “O Seminarista” cairia como uma luva.

Roteiros, figurino, cenário, tudo elaborado por nós. E aquelas apresentações das turmas faziam muito sucesso! Todos os alunos adoravam assistir as interpretações, fosse para chacotar, fosse para dar risada das coisas inusitadas que apareciam. Escrevi o roteiro. Coloquei cenas fortes, falas potentes e diálogos pesados. Alguns palavrões em cenas críticas. A trilha sonora foi primorosa: desde Black Sabbath até Mozart.

Ensaios, releituras do roteiro original, tudo extremamente impecável e interessante.

No dia da apresentação, lembro que acordei muito cedo. Nossa peça era a primeira do dia, seguida de mais umas três ou quatro. Preparei minha batina, penteado com uma pitadinha de gel e muito nervosismo. A primeira cena começava com barulho de chuva, era o ínicio da música Black Sabbath, da banda homônima. E como tremiam minhas mãos! Entrei em cena, nunca olhe para o público, eu olhei. Casa lotada. Amigos surpresos com a batina.

O ápice da peça, para mim, seria nos primeiros cinco minutos de atuação, no momento em que eu conversaria com Margarida e explicar-lhe-ia a drasticidade do nosso futuro. E foi o que aconteceu. Usei de muita emoção. Foi coração e alma. E a cena termiraria com um abraço e Vivaldi Inverno Adaggio ao fundo. A cena foi tão forte e estarrecedora que o teatro sumira. Todos permaneceram em um completo e infinito silêncio matutino. Abracei Margarida. Ela me abraçou. Eu estava chorando de verdade, confesso. E não era para ser tão triste. Terminei com uma frase que não estava no roteiro, frase de amor, muito menos que eu pensava em dizer. Olhei para Margarida, olhar diferente que me acomedera de quaisquer escapes emocionais que pudesse viver em um mundo qualquer. Era um olhar direto e intenso.

Beijei-a.

Meu primeiro beijo. Um beijo vestido de batina.

E fôra um beijo diante de centenas de pessoas que sequer imaginavam que aquele beijo era muito mais que apenas um beijo técnico ou encenação. Um beijo real, demorado, lento e carregado de emoções.

Todo o teatro veio abaixo com aplausos e gritos dos meus amigos! A cena terminou, Margarida saiu de cena e perdi metade das minhas falas. Eu improvisava pedaços, remendava falas porque simplesmente estava em um estado letárgico de euforia e precisava demonstrar exatamente o contrário! Algumas cenas depois, o desfecho.

Era a primeira missa que Eugênio celebraria, depois de sua ordenação. O Rossi — polaquinho que estudara comigo e fazia papel de coroínha — entra correndo, esbaforido, “Eugênio, chegou um cadáver! Poderias tu encomendar-lhe as orações?”

“Claro, sem problemas”.

O cadáver era de Margarida. A sua segunda cena na peça. É claro que a peça teve novamente um tom pesado e até meio mórbido: Aproximei-me daquela mesa onde o magnifico corpo esticado pairava. Margarida, a reconheci na hora. Fitei-a por alguns instantes, passeei minhas mãos por aquele corpo (e isso não estava no roteiro, confesso) aproximei-me do seu peito e chorei. Novamente o teatro fechado em um silêncio absoluto. Levantei lentamente e a beijei. Novamente um beijo puro e intenso, meu segundo beijo na vida e no teatro. Um beijo onde ela apenas recebia meus lábios. Mais Vivaldi, melancólico, embriagando aquela cena de uma dor terrível.

Eugênio enlouquecera na primeira missa celebrada por ele. Rasgou a batina e se jogou no chão, contorcendo-se de dor e remorsos. A luz gradualmente apagou e a música sumira aos poucos. O público ovacionou toda aquela dramatização com aplausos em pé, urros dos colegas de classe e muitos gritos. Foi uma peça planejada para 30 minutos mas que em 15 conseguiu cortar as cenas mais importantes do celibato longíquo de Eugênio.

Minha primeira e única atuação teatral. Meu primeiro beijo. A única vez que chorei de verdade quando era para chorar de mentira.

A vez definitiva em que decidi não mais ser um seminarista. Havia me apaixonado por Janaína.

Primeira namorada, menina que eu conhecia desde a pré-escola. E o pequeno romance durou até o final de ano, quando ela mudou para alguma cidade interiorana de São Paulo.

Primeiro romance, mas não o primeiro amor, ainda.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. adorei essa história eu tb sou seminarista
    to com o primeiro ano no seminario
    e adoro fazer atividades certas na hora certa e do geito certo
    to no seminario hem porto velho
    e adorei
    é legal xau abraços

  2. Eu também queria a peça!!!! Sou professora de Artes e fizemos um projeto com Literatura e Artes e preciso da peça Seminarista. Já escrevi peça do livro “Senhora” e me deu muito trabalho.. Se vc pudesse quebrar esse galho pra mim… E puder mandar pro meu email! Obrigada

  3. adorei essa história eu tb sou seminarista
    to com o primeiro ano no seminario
    e adoro fazer atividades certas na hora certa e do geito certo
    to no seminario hem porto velho
    e adorei
    é legal xau abraços,meu e mail é:roberta_cleia@hotmail.com

  4. oi!
    olha eu tambem gostaria muuuito dessa peça!!!
    estava precisando dela para minhascrianças apresentarem!
    por favor me envie!
    “magno_rb@hotmail.com”
    grato

  5. Olha adorei,muito lindo.Estou no 2 ano do ensino medio e tenho que apresentar um teatro desse livro,ele é lindo e triste e nao sei como apresentar essa peça.Se voce poder me ajudar vou ficra muito grato por isso.

  6. Oi,td bem! Adorei a história,muito legal.Estou no 2 ano tbm e tenho fazer uma peça teatral desse livro.Se você ainda tivesse a peça escrita ,me ajudaria muito.
    Grata.

  7. Olá tudo bem? Estou no 2º ano do Ensino médio, e vou ter que fazer uma mostra literária sobre este livro, se você tiver esta peça escrita com o roteiro, e explicando um pouco mais sobre o cenário me ajudaria muuuito. SE TIVER ME MANDE POR E-MAIL POR FAVOR mari.araujo_@hotmail.com. Grata 😀