O prefeito maior

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O velho prefeito falido da cidade moribunda ganhou, enfim, a estátua de bronze que sempre almejara.

Era sonho saborear, mesmo que finado e desejo mórbido, seu busto ao lado do Padre Estrôncio e Dona Catifunda. Ora ora, era um “sair da vida para entrar na história”. Bem mequetréfe, convenhamos. Mas era.

Admiração só dos pombos, que o redecoravam com uma alvura fedegosa.

Dos seus olhos opacos vista apenas das prostitutas, dos velhos gagás, da molecada traquina dos pelotassos.

Não o desejaria, busto de bronze da praça decadente. A polenteira tinha busto, o mandatário chacinento tinha busto. Até a Filandrinha do Rococó tinha um busto de praça decadente.

Bateu-se em todas as portas da inquietude, falou algruras de criadores e então o silêncio, que implacável o criara, sorriu de canto de boca bangela a estatueta oca de bronze de terceira, um suspiro murchante que o quebrou no joelhinho da esperança desacreditada.

É, estátua de busto de prefeito escorrido, tua ganância te fagocitou.

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Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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