O pessimismo existencial

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Tem um monte de gente que acha que sou um babaca egocentrista ou um pessimista inveterado, um sujeito baixo e descriterioso que não gosta dos humanos só por não gostar mesmo. Birrento.

Então vou contar porque sou o cinismo em pessoa.

A verdade? Eu não me importo — e estou sendo o mais sincero possível — com o mundo cotidiano. O dólar subiu ou desceu? Não sei. O presidente conseguiu a reeleição? Parabéns para ele. Não quero saber se o governo boliviano roubou a Petrobras. Ela não é minha, não tenho ações dela. Não me interessa se o terror está deixando os americanos mais neuróticos. Pouco me importa se morrem 80 ou 120 pessoas em Bagdad, por dia, porque explodiu dois carros-bomba. A amazônia está sumindo em uma proporção incrível. Meus pêsames para ela. Fico apenas com dó dos orangotangos, elefantes e girafas que por lá moram.

Tentei, por dez anos, mudar o mundo. Juro! Fiz de tudo. Fui bonzinho, caridoso, atencioso, protestante, ativista, grevista, petista, comunista, vanguardista, causista, greenpeacisista, filantropo e atônito. E de nada resolveu. O mundo continuou cruel! Os muçulmanos continuaram a guerra santa. A fome aumentou. A AIDS matou mais do que deveria. Ajudei, bem ajudado, umas 30 pessoas, uns 5 cachorros, 12 árvores que nasceram dentro de um saco e invariavelmente morreriam sem minha intervenção. E quer saber? De nada adiantou.

O Brasil está uma merda. O povo brasileiro é a raça mais desgraçada que poderia existir. Odeiam a terra em que vivem. Mijam nos monumentos, apodrecem a pátria. Pasmem: alguns sabem cantar o “Star Spangled Banner” mas não sabem o que é o lábaro que ostentas estrelado. São americanos em pele de latinos. Veneram RBD, JayZ, J.Lo, 50Cent e desconhecem o maracatu atômico ou o cordel do fogo encantado.

É a placa ali no semáforo, mais cínica do que eu, que diz: “Esmola não dá futuro!” mais abaixo, em letrinhas miudas: “Não alimente o narcotráfico, o comércio ilegal de armas, o tráfico de escravos” “Não alimente os animais indigentes”

É o mendigo que não sabe seu próprio nome, data de nascimento, o que é, realmente.

É a mulher nojenta que ostenta a soberba incrível ao xingar o vendedor de panos alvejados na janela do seu carro blindado.

Hoje não tolero muita coisa, mas dou R$10 para um mendigo no sinal. Aliás, dei meu guarda-chuva bonitão, escocês, que me acompanhava há 10 anos, para um menino que estava na chuva. A cara de felicidade dele valeu muito mais do que qualquer sorriso humanitário que já existiu.

O mundo é marginal, meu filho.

Está caótico. Os bandidos são muito mais malvados do que você imagina. Não acreditam mais em Deus. Acreditam em um canela-seca enferrujado que botam na cintura. Os ladrões abrem seu carro em 3 segundos. Os larápios da internet secam sua conta bancária em 12 segundos. Os seqüestradores-relâmpagos passeiam a noite inteira contigo dentro do seu próprio carro e você não vai saber, ao certo, se sairá vivo ou queimado dessa merda toda.

Orkut para ver a desgraça que a vida das pessoas que conheci em um passado remoto se tornou. Aliás, como tem gente que não evoluiu patavina nenhuma!

Aliás, o Orkut tem uma comunidade que coleciona perfis de pessoas que morrerram. E quanta gente está lá, como urubus, esperando o próximo morto para desejar um “descanse em paz”!

As pessoas gostam de ver tragédias. Gostam de ver carros batendo. Gostam de ver gente morta. Curtem jornais-carnificina.

Pornografia. Putaria desenfreada. Sexo, drogas e rock no sentido mais lascivo e promíscuo. Mulheres-objeto, fotografias amadoras com as câmeras digitais em motéis furrépas de R$5 a hora.

Quanto mais, melhor.

Maconha e pinga para ficar doidão. E perder a realidade que pinica as ventas.

Essa é a humanidade de hoje.

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Não escrevo mais como deveria. Talvez porque fiquei velho. Todas minhas histórias eram reais demais, e eu não sei mentir. Nunca menti. Sempre vivi da realidade crucial que beirava a verdade. E isso me matou justamente porque acabou minha experiência de vida. Apenas alguns pequeninos trechos cotidianos sobreviveram.

Meu videogame é mais expressivo. Minha coleção de DVD´s é mais expressiva. Meus desenhos morreram, minha criatividade espreita melhores dias. E espera com paciência.

Dias atrás pensei em mudar para um serviço de blogs gratuitos. Fiquei na eterna dúvida da dicotomia existencial blog gratuito X www.R$330-por-ano.com.br.

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Bah, esqueça. Eu minto, e minto muito. A base da literatura é a mentira. A falácia, o desencontro real da vida presencial.

Eu escrevo muito. Adoro escrever, e isso é um processo bem desencadeado.

O problema é a realidade.

É a falta de discernimento entre o certo e o errado. Entre avançar e esperar a hora.

É a teimosia de tentar escrever ou desenhar coisa belas e inteligentes, enquanto a massa anda na contra-mão disso tudo, à sotavento, enquanto eu teimo barlavento.

Meu mundo é muito grande. Conheço toda a escuridão podre e fétida. conheço o feio, o subversivo, a morte que ronda todos, a corrupção, o suborno, os sete pecados capitais, os maconheiros, os traficantes. E conheço a luz, a seda, a alvura, o brilho do cabelo sedoso, a paz, o cheiro de banho tomado, a música compassada, a inteligencia, os bons costumes, o respeito e a ternura.

Ainda assim, gosto mais da bela vida justa e sincera.

Tenho esperanças, tenho fé, o que são, no fim das contas, coisas boas.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

0 comentários

  1. Meu, escreve um livro… de boa… queria ter vc em casa pra ler quando eu quisesse, em qualquer lugar…

    Não interessa… quero perdir permissão sem seu consentimento para colocar uns trechos de seus pensamentos no meu orkut…

    Sinta- se lisonjeado… nao é qualquer um que entra no meu coração emodifica minha vida.

    Um beijo

    e reveja a questão do livro…

  2. Ser realista num mundo como hoje é tão difícil como assoviar e chupar cana. A Televisão, a igreja e as comunidades mascaram de forma cruel a realidade do mundo. Em uma bree conversa com minha esposa, comentei sobre o dia de hoje. 07-07-07. Toquei no assunto com ela (que estava no computador jogando) sobre o evento do Live Earth no dia de hoje. Fiquei pasmo com a resposta dela.

    “Dinheiro pra fazer esses eventos eles tem, mas pra ajudar um pobre na África, não.”

    Será que de todos os grandes figurões que apareceram no evento, dentre artistas, celebridades, politicos influentes e até as grandes empresas de Mídia e telecomunicação que fizeram uma transmissão global em HD juntassem todo o dinheiro do desenvolvimento do evento e comprassem comida para algumas familias necessitadas, ou então uma compra de roupas para as populações com frio no mundo, isso não teria sido visto com olhos melhores?

    Temos sim que nos preocupar com o aquecimento global e todos devemos fazer nossa parte. Mas toda população unida, não polui e não aquece o globo como uma grande industria que joga na atmosfera milhoes e milhoes de kilos de sujeira todos os dias.

    Temos nossa culpa nisso sim, mas um evento global de conscientização como o Live Earth, apenas serve pra reunir velhos artistas como foi a reunião do Pink Floyd no ano passado. Não conscientiza os empresarios capitalistas que jogam o seu lixo no nosso mundo.

    Escrevo esse texto de comentário, após ter redescoberto o blog do meu amigo que a muito tempo não vejo, mais respeito e sinto uma puta saudade. Mas saudosismos a parte, gostaria de parabeniza-lo aqui publicamente e desejar sempre o melhor.

    Namastê.