O perfume da mulher

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É dela. É dela o perfume adocicado que achincalhou meus inocentes devaneios como uma música clássica, allegro non troppo, palpitando em minhas ventas.

Estávamos ambos parados, na praça central. Minha casa era a terceira, amarela das janelas brancas. A praça sempre foi minha, por direito. E por vontade pessoal, o que não exime meus achismos inúteis. Ela fitava algumas crianças a brincar. Seu olhar era vago e gostoso. Esperava alguém, suponho. E eu simplesmente observava aquela mulher. Culpa do vendo, fique claro: contrário à ela, favorável à mim, trouxe-me as frutadas notas adocicadas ao meu olfato furtivo.

Ela se aproximou, perguntou as horas. Oi, tudo bem? Respondi. Ela sorriu. Um sorriso daqueles significava um “tudo bem” todos os dias, acredite. Só podia ser. E você, como vai? Ah, se ela deixasse eu dizer a verdade, falaria a plenos pulmões o que aquele sorriso momentâneo representava para mim. Mas era apenas uma saudação casual, um  pedido de horas de uma desconhecida, apesar de vir precedido de um sorriso e de uma leveza descomunal.

Disse as horas. Emendei um elogio fajuto ao extremo: disse que seu sorriso era bonito, que seu cabelo sabia dançar deliciosamente com a brisa gelada, que seus olhos eram magnificos-intrigantes. Enquanto conversávamos, um jazz leve tocava em minha cabeça. Ah, isso é um dom! Quiçá com um volume tão alto que até ela poderia ouvir. Sorriu e me agradeceu as sentimentalidades.

Ana Claudia, ela disse. Percebi que ela perdeu fôlego ao sussurrar seu nome. Um olhar cruzado quando escutei seu nome, e tudo girou em uma velocidade estonteante. Eram fatos antigos, lembranças, adolescência e descobertas. Rápido, rápido. Aquela mulher à minha frente fôra uma antiga namorada de colégio. Não pode ser!

Disse-lhe meu nome. Sua expressão também a deixou pasma. Crescemos, sumimos daquela cidade, cada um construiu um pequeno começo de futuro. Éramos apenas adolescentes. Eu amei aquela mulher no passado. Ah não, era o primeiro amor inesquecível!

Eu toquei em seu rosto. Ela acariciou a minha minguada e escanholada barba. Entendeu e me abraçou. Eu precisava dela mais do que tudo. Não, precisei, não preciso mais. Ah sentimentalidades! Confundem-me e gargalham. Aproximamo-nos, olhos nos olhos. Por um longo espaço atemporal.

Afastou-se. A música em minha cabeça parou. Disse estar casada, teve uma filha “aquela com roupinha rosa”. Despediu. Eu disse que entendia e que iria embora, era um compromisso inventado de imediato. Era a razão, como sempre.

Aquele abraço deixou resquícios de um doce perfume maravilhoso. Fez-me crescer um fino sorriso pelo rosto.

No caminho desconexo ao compromisso imaginário, entendi como a vida sabe pregar peças. Minha vida mudou naquele momento. Coisa boba, pensei. Mas logo notei que troco a roupagem dos meus sentimentos a cada encontro ou desencontro vivencial. Imagina quantos desavisados — sortudos — que se apaixonam subitamente por uma mesma pessoa, duas vezes, existem nesse mundo? Blasfemo a sorte. Sorte? Nunca existiu. Isso são pequeninos milagres vivenciais que recebemos diariamente, e que nunca percebemos ao certo, que de fato, existem.

Cantarolei a música que tocava no rádio do carro. Era o único final feliz encontrado.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

0 comentários

  1. Poxa que texto lindo e inspirador!
    Parabéns pelo excelente blog.
    Queria fazer uma perguntinha, lembro-me de um site que se chama Ópio, lembro que o dono do blog tinha indicado esse blog madcap, eu sinto mta falta dos lindos textos que tinha lá, será que existe livro daqueles belos textos? se tiver quero comprar, grande abraço!

    1. Olha só, aquele blog fechou porque o antigo dono ficou doidão. Acho que foi aqueles lances da viagem que ele fez para as Índias ocidentais, ele voltou todo transcendental. Até lembrava muito aquela época massante dos Beatles depois que encontraram seu nirvana superior.

      O que aconteceu depois foi: ele lançou um livro. Era de tiragem simples, 5000 unidades. Sei que destas, cerca ce 3000 ele comprou e distribuiu para fãs e conhecidos do meio. Os outros 2000 foram recolhidos, sem mais nem menos pelo próprio autor, o que resultou em uma série de interjeições no mundo dos blogs. Ele fechou as portas do site, mudou de cidade, encerrou as atividades profissionais na editora e cedeu todos os direitos de som, imagem e idéias para mim, a serem usadas posteriormente no blog.

      Sem dúvidas foi uma coisa que até hoje os fãs e amigos do camarada não conseguiram entender.

      Nem eu.