O ovo de páscoa e o seu direito de reclamação

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A Páscoa já passou.

A minha maior reclamação sobre a efeméride não era relacionada diretamente com os preços dos ovos ou com a necessidade de pestanejar contra o capitalismo instaurado na ‘obrigatoriedade’ da compra familiar.

Eu só reclamava da altura que esses ovos eram postos naqueles corredores das delicinhas chocolateadas.

Hoje eu percebo que o teto chocolotal não estava errado: 1,4% da população brasileira habita a estratosfera dos gigantes de mais de 1,93m. A média de altura do brasileiro é de 1,62m. Logicamente eu é que preciso me adaptar, não a massa. Pois então. A desgraça nem era assim tão feia.

Aí todo ano tem aquela turma do reclama-mamai: gente que compara o quilo da picanha com o quilo do ovo de Páscoa. O quilo do ovo de Páscoa com o quilo de chocolate Dizzioli (aquele do bombom do Fofão). A turma que mostra como fazer um quitequetão com merenda mirabel. Como deformar um capacete plástico de pedreiro e besuntar com uma barra de chocolate do padre para fazer uma forma de ovo tamanho n.43. A turma do boicóta-que-mata essa praga! Ou o crentones que reclama que a Páscoa é religião do renascimento e não ovo marrom.

Eh.

Durante uma bela conversa de pub com meu chefe irlandês casado com uma francesa e que moram nessa união política de sistema parlamentar com monarquia constitucional chamada Reino Unido, ele me contou uma historia legal sobre como as tradições pasqualinas britânicas mudaram com o tempo.

 

Para resumir: o povo aqui gostava dos bengos e acepipes de Páscoa; alguém reclamou que o preço estava caro. Boicotaram aos poucos, ano após ano. A comunidade das minorias religiosas reclamou que era errado propagar  esse tipo de ação beneficiando apenas os cristãos. A industria chocolateira cedeu, os mercados locais recuaram e a Páscoa capitalista se reduziu ao turismo do centrão.

Na época da Páscoa por aqui a coletânea de ovos e coisicas legais se resumem em meia prateleira com alguns chocolates em formato de ovos, com preços similares aos moldados em formatos de barras.

 

Então veja bem se esse seu desejo de desmantelar a quadrilha que explora o monopólio chôcolo-pascoal vale esse chicotear de línguas todo. Teu piá vai ficar sem os ovo. E a tua filha vai se contentar com umas cascas de ovo de galinha, pintadas com guache na escola da Tia Filandrinha.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>