O malvado sou eu

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Não gostaria de ser tão mau. Não sei o que acontece comigo. Ontem um pobre diabo aleatório fez aniversário e a rede social anunciou na área comum dos comentários. Não conhecia muito bem o sujeito, aliás nem sei porquê de nos tornarmos amigos.

Tudo aconteceu muito rápido: “Ah, é seu aniversário então. Recebe tu este unfollow com os cumprimentos da casa.” E assim deixamos de ser amigos.

Foi uma crueldade tão rápida que só percebi depois de aniquilar a tão frágil e quase inexistente amizade com dois cliques em menos de 3 centésimos de segundo.


Bom, ao mesmo tempo não gostaria de ser tão bom. Choro em casamentos. Emociono com música clássica ao vivo. Aliás escorrem lágrimas toda vez que escuto uma excelente interpretação musical. Tenho dó de cachorro de rua e de mendigo. Gente ilegal, turista olhando mapa de cabeça para baixo. Pessoa sem perspectiva de subir escadaria com mala de 49kg.

A estação de metrô tem um mendigo próprio. Will. Todo mundo o conhece, é um dos casos por isolamento. Explico: alguns se tornam mendigos por não ter família. Perderam pais, irmãos, tios. São pessoas sozinhas e sem ninguém para ter consigo. Então saem de casa, perdem a noção de civilidade e se tornam párias da sociedade. Começam a perambular e receber atenção (e soco de vez em quando) de transeuntes.

Eu tenho dó desses mendigos justamente pela vida solitária. Órfãos. Sozinhos no mundo sem ninguém para falar feliz aniversário ou quebrar o osso da sorte do peru de Natal.

E gosto de ajudar. Ajudo gente sempre que posso (e não posso).


O meu equilíbrio entre a malvadeza extrema e a bondade imaculada é um fio tênue que sempre estala e parece sucumbir lentamente ao peso do tempo. Não sei como domar os dois sentimentos. A sociedade não gosta de gente bondosa. Nem de pick-bandidão.


Foi assim que resolvi escrever. Minha escrita é visceral. Tento não usar palavrão, neologismos e gírias. Aliás evito qualquer palavra que não possa ser muito bem digerida por pessoas de vocabulário mais simples. Nada de assunto técnico ou pedante. Vangloriar-se é afundar na lama fedorenta do ostracismo.

Meu amigo Denis me chutou a bunda e me pôs no eixo por isso. Toda vez que um texto meu saía atravessado no Houaiss lá vinha ele tentar repreender o Coelho Netto que me possuíra. Era engraçado escrever difícil. Ninguém entendia. Mas era malvado. Sentia que meu público tinha medo dos meus textos. Ou não entendia patavina alguma. O que é mais triste ainda.

Rilke disse: “Se você acredita que é capaz de viver sem escrever, não escreva.”

A escrita era uma forma fluida de me comunicar melhor. Eu gostava de escrever. Contos, poesias, crônicas.

Nunca mais escrevi poesia. Era divertido. Hoje tenho repulsa. Considero poesia o conto do preguiçoso. Mas cada qual, cada qual.

Escrevia um conto por dia. Criava uma personagem inédita. Adorava pequeninas reviravoltas. E poft! Os contos, nunca mais.


Por uma lógica de padeiro, concluo que todo mundo tem um número máximo de poesias e contos na cabeça. Use com parcimônia a sua cota ou você vai acabar igual eu: com um monte de contos chinfrins.


É claro que eu gosto de listas e vou citar alguns dos mais importantes fatores que me fazem juntar coragem para escrever. O primeiro é o mais legal e é claro, não foi eu quem falou.

  1. Escrever para não morrer. (García Marquez)
  2. Não há mudança ao meu redor sem a escrita.
  3. Escrever é facílimo. Ou impossível. (Faulkner)
  4. É um exercício gratuito e sem limites.
  5. All sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them. (Blixen)
  6. Eu gosto de compartilhar ideias e pensamentos. Mesmo quando estão todos poluídos e errados.
  7. É uma forma deliciosa de conhecer pessoas novas. A escrita atrai inteligência e criatividade alheia.
  8. A internet nasceu da disseminação do conhecimento escrito.
  9. Escrever é oficializar mentiras.
  10. Os bons leitores têm sede de leitura boa. Vibram quando acham bons escritores e compartilham até as migalhas.
  11. Tem como escrever tudo de forma muito mais paradoxal e dramática.
  12. E sem mentir.
  13. Muito.
  14. A criatividade da escrita é um dos processos mais bonitos que existem.
  15. Reaprender a ler. E interpretar. E conhecer gramática.

Uma vez escrevi que um dos mais deliciosos e únicos cheiros que existiam era o da terra molhada por chuva. Foi uma descrição bem elaborada até.

Um leitor da rede retrucou: ‘Cheiro bom é o de mulher que acabou de tomar banho”.

Ele quebrou a minha segunda espinha literária. E me transformou em um adulto literal.


Até que uns dias atrás eu achei a razão do cheiro da chuva. Eu ainda gosto do cheiro de chuva. O cheiro de chuva – olha só! – tem nome: petricor.

Petricor (do grego: πέτρᾱ ↝ pétrāpedra +  ἰχώρ ↝ ichṓr ↝ sangue dos deuses)

Cunhado por dois cientistas australianos, o petricor é uma mistura de óleos essenciais das plantas que evaporam com a chuva. E de enzimas produzidas por uma bacteria que fica no solo. E do ozônio formato por reações elétricas tempestuosas. É um cheiro complexo. Quiçá tão bom quanto um cheiro de mulher recém banhada. Por chuva. E óleos essenciais.


Texto publicado originalmente na minha página do Medium: medium.com/@spegel

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.