O longo conflito sobre o que nos cerca

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Voltei de avião para Brasília. Não chamaria nunca Brasilia de casa ou lar ou qualquer coisa que se referisse ao meu lugar. Não tenho mais raízes. Brasília, Timbuktu, Curitiba, Florianópolis, Vutuvuru dos Bento. Todas, um quintal temporário.

Virei um cidadão do mundo. Lá em cima, entre as nuvens que insisto em olhar da janelinha graxenta do avião, descobri que a razão não é mais temerária. As fronteiras vivenciais sobrepujam qualquer expectativa de fixar-se em algum lugar.

Neste carnaval, nada foi diferente. Viajei para o sul do país. Encontrei alguns amigos e meus pais. Nossa conversa evoluiu muito, deixamos de preocupações e vivenciamos a filosofia descompromissada.

Meu mundo não atrai mais a saudade. Meu caminho não é mais a ida e a volta, sequer existe a dinâmica de movimentos.

Apenas ando por aí. Um passeio com a certeza de que tudo se repete em um ciclo perfeito de prazer e alegria.

Tenho mais sorte hoje em dia. Encontro lugares, pessoas e situações que não acreditaria se eu contasse para mim mesmo, anos atrás.

A vida está cada vez mais complexa e inteligente. Ao meu redor, uma aura de proteção divina e uma exultação espiritual intensa. E isso tudo é apenas uma reação espontânea da vida, respondendo na lata quem eu sou, na verdade. Não consigo mais ver o lado ruim das coisas. Descobri que minha visão não era (e talvez nunca foi) perfeita. Tenho um tréco na córnea. Nem o nome eu lembro mais. Talvez eu tenha que usar óculos, lentes rígidas, quiçá fincar anéis de Ferrara no meio da minha íris ou transplantar uma córnea (“Mas não se preocupe com isso” disse-me a doutora).

E isso não me faz perder 1 minuto sequer de sono.

Meu mundo melhora a cada segundo. Exponencialmente, devo dizer.

Minha mulher é sensacional.

Gosto das minhas fotos.

E os pequeninos milagres alvissareiros recheiam de boas novas minha vida. Transformam-se em uma cúpula de sentimentos inalienáveis em volta desse mundinho de merda que muitos vivem sufocados.

Quer ser pessimista? Suma de perto de mim. Quer ser um materialista compulsivo? Suma. Tarado, infiel e insensato? longe, sivuplé. Não dependo mais de uma vida abusiva ou ancorada. O dinheiro é bom, mas vicia. O dinheiro bem gasto em ações inesperadas, é prazenteiro. Dinheiro não é pecado. Lamber os pêlos e as bolas dos bichos que o estampam é que é.

A vida é assim. Quanto mais complexa e intrínseca, mais simples ela é. Contraditória e inverossimil, inacreditável como toda vida deveria ser.

Como toda vida deveria ser.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

0 comentários

  1. De volta a ativa, hein?!
    Engraçado a sua vida, parece cigano. Ora está em Brasília, ora em Curitiba, até Alemanha 😉
    Viajar é muito bom, mas melhor é poder ter um lugarzinho nosso. O lugar em que nos sentimos confortáveis, bem!
    Você mudou bastante mesmo e vejo que para melhor. Durante todos esses anos acompanho a sua trajetória podemos notar a pessoa maravilhosa e especial que você se tornou.
    Bom, tenho que ainda concordar que a sua esposa é sensacional. Amo-a demais!
    Saudades imensas 😉

  2. O que nos cerca são cercas. Não falo daquelas de madeira ou arame-farpado, mas sim daquelas imateriais, que limitam o pensamento. Estas e outras fronteiras precisam ser postas abaixo, apagadas, para nos libertarmos. Se este meu comentário não parecer pertinente com o que acabo de ler por aqui, o que fazer?

    A vida é simples: simplesmente viva.

  3. Hoje, um lindo dia de sol, eis que avisto lá do alto uma mensagem…
    Uma url, uma url, uma url!!!
    Parabéns, está tudo muito lindo por aqui…
    Obrigada por fazer um coração feliz.