O Intelectual Obtuso

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O manual da auto-defesa intelectual

O Manual de auto-defesa para o intelectual obtuso brasileiro é uma releitura atualizada do primeiro guia — então publicado originalmente no finado blog em 20 de dezembro de 2002. Desde então, recebemos inúmeros telefonemas e cartas de angustiados intelectuais modernos.O questionamento, todavia, é uníssono: como deve o indivíduo cult e up-to-dated proteger-se contra horda de hunos que tenta reduzir as dimensões do reino de seu ego e usurpar seu trono em reuniões sociais, happenings e até em redes sociais da teia global, pondo à prova a ciência desses vates a cada minuto?

Com isso em mente, o MadCap reedita gratuitamente para os seus associados e populares, uma espécie de instruções safas, em fasículos reescritos e modernizados. Aqui, o interessado poderá encontrar artifícios que o ajudarão a demarcar seu território, e a se destacar no mais hostis e inóspitos sarais vivenciais.

Sempre discorde em relação à apreciação da obra consagrada de qualquer autor, isto é, mostre sempre preferência por outra obra (de preferência menor, mais obscura), utilizando-se de adjetivos e expressões contumazes nesse tipo de crítica.

Exemplo um:

“Laranja Mecânica” é, com certeza, sua obra-prima…
— Não acho, realmente. Prefiro “Dr. Strangelove”, um filme bem mais orgânico…

Exemplo dois:

— Ah, “O Vermelho e o Negro”! Stendhal não poderia ter sido mais feliz!
— Já leu “Armance”? É uma obra muito mais visceral, de uma força dramática quase cruel…

Divisor

Emita sempre opiniões definitivas, ou seja, transforme suas impressões em conceitos insofismáveis. Não dê qualquer motivo formal, a não ser sua subjetividade. Exagere, desmunheque se for preciso.

Exemplo um:

— O “OK Computer” é o álbum da década de noventa! Um marco na história da música moderna. É tudo na vida de uma pessoa!

Exemplo dois:

— Glauber é Glauber!

Divisor

Elogie figuras controversas ou idéias polêmicas, no intuito de mostrar que você tem uma personalidade forte e é um livre-pensador sem preconceitos (evite Hitler, por demais fácil). O lance é causar celeuma.

Exemplo um:

— Carlos, o Chacal foi o maior gênio do século XX: uma figura a servir de exemplo.

Exemplo dois:

— A teoria de Malthus é esplêndida e seus conceitos, admiráveis.

Divisor

Da mesma forma, diminua elegantemente a importância de artífices consagrados.

Exemplo:

— Borges é repetitivo, seus textos são maçantes e de um estilo insuportavelmente barroco.

Divisor

Cultive hábitos pouco ortodoxos e tente tornar-se conhecido através deles, transformando-os em uma “marca pessoal”. Ademais, eleja preferências obscuras, descartando-as ao primeiro sinal de conhecimento por parte das “massas”.

Exemplo um:

— Na segunda-feira gosto de ir à praia jogar paciência, acompanhado de uma garrafa de cidra Cereser.. É coisa minha mesmo…

Exemplo dois:

— Tenho todos os discos da banda islandesa “Flying Pimp”
— Sério? Eu amo essa banda também!
— Bem, na realidade não gosto muito, acho simplório. Esses discos são de uma fase minha que prefiro esquecer…

Divisor

Nesse espírito, seja nebuloso e reticente em relação às fontes do seu acervo. Jamais revele informações que possam popularizar aquele “material exclusivo”.

Exemplo:

— Cara, onde você conseguiu esse livro do Chomsky?
— Ah, ganhei de uma amiga aí, mas nem curto muito, e tal…

Divisor

Mesmo que não conheça em absoluto o assunto tratado, insira filigranas pouco importantes, todavia curiosas, extraídas de resenhas, matérias de revista, programas de televisão, etc. Exercite a memória.

Exemplo um:

— … Isso fala mais ao pensamento de Nietzsche.
— Sim, sim. Podre-diabo, ficou louco ao ver um cavalo sendo morto em Turim, e assim permaneceu até o fim da vida…

Exemplo dois:

— … e esse foi o real motivo geopolítico da detonação das bombas em Hiroshima e Nagasaki.
— De fato. Tudo isso culmina com o Enola Gay (que era o nome do avião) despejando o Little Boy(nome dado à bomba) sobre as cabeças daqueles infelizes, Ou então o BockScar (outro b-29) que evadiu-se com a Fat Man (a outra bomba) em queda…

Divisor

Nunca, jamais, admita um erro. Sempre que isso acontecer e houver algum cretino para corrigí-lo, cite uma referência que não poderá ser checada no momento e afaste a responsabilidade do erro de si. É famoso o expediente do “Há controvérsias…”

Exemplo:

— Com o início da guerra em 1935…
— Em 1940, você quer dizer.
— Não, 1935 mesmo. Essa é a data considerada pelo historiador Eric Hobsbawm como o início do período beligerante e…

Divisor

Adote uma atitude “sex sucks”. Demonstre dar pouco valor ao amor carnal e execre a pornografia. Se tiver de tomar alguma posição, tenda sempre a um homossexualismo velado, atitude considerada cool nos meios acadêmicos. Vale associar a essa imagem um ar deprimido, constituindo a modalidade “gay triste”, igualmente apreciada. Cite, sempre que possível, Oscar Wilde.

Divisor

Nunca se refira aos seus ídolos pelos dois nomes, o que torna a citação algo forçada. Prefira uma suposta intimidade e aproximação geradas pelo uso do apelido ou apenas um dos nomes artísticos (amiúde o primeiro, no caso de personalidades nacionais, e o segundo para o pessoal de fora). Assim temos: o Chico, o Caetano, o Raul, o Glauber e a Gal; e o Warhol, o Whitman, o Kipling, etc.

Exemplo:

— A Clarice (Lispector) mostra profundas influências do Joyce (, James)

Divisor

Sempre que possível, cite o nome das obras em sua língua original. Você não precisa dominar o idioma, apenas pergunte a alguém que o faça e treine bastante em casa.
Coringas de bom grado: L’Etranger (O Estrangeiro), Der Prozess (O Processo), Preštupleine ï Nakåzanie (Crime e Castigo), Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray)

Divisor

Seja pós-moderno. Comece por preferir coisas atuais aos clássicos embolorados. Sempre que possível escolha as versões novas ou revisitadas, também chamadas releituras (decorar esse termo), de obras antigas.

Exemplo:

— É claro que prefiro a versão minimalista de Hamlet do Peter Brook! A do Shakespeare é deveras naïve…

Divisor

O bom intelectual está sempre à frente. Tudo seu é mais e melhor. Assim, opta sempre por movimentos e expressões artísticas precedidos por “neo-” e “pós-”. Não importa o quão recente seja o ‘oba-oba’, o simples uso dessa técnica propicia sua superação imediata e a colocação no plano do passado antiqüíssimo. Mais: use termos superlativos antes do nome, o que tende a aumentar o hermetismo e, de quebra, melhorar a sonoridade.

Exemplo um:

— …superior a De Kooning?
— Sim, falo da descoberta do neo-expressionismo e a transvanguarda na década de 80.

Exemplo dois:

— Não sei se considero isso pós-moderno…
— O quê?! O hiper-realismo desses filmes suscita ambivalências ultra-passionais.

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Você não tem que necessariamente gostar das coisas que idolatra publicamente. Como já foi explanado nos tópicos iniciais, suas preferências devem ser guiadas por fatores como obscuridade, capacidade de gerar polêmica, efeito dramático, etc. Não havendo, igualmente, necessidade de entender as obras por completo…Para ser franco, você não precisa nem conhecer essas coisas!

Exemplo um:

“Finnegan’s wake” é meu livro de cabeceira…

Exemplo dois:

— Gostas de música atonal?
— Se gosto? Ouço Stockhausen diariamente enquanto escrevo minhas resenhas para o jornal…

Divisor

Compareça aos seletos círculos culturais. Mas não faça amizades íntimas (nunca empreste livros), vá apenas para sondar, sacar o que o “pessoal” anda lendo e fazendo. Mantenha sempre o ar circunspecto e o laconismo dos grandes gênios. Compareça também (mesmo sem ser convidado) às rodas de artistas. Mantenha a quietude até ser solicitada, por educação, sua opinião a respeito do trabalho do grupo. Nesse momento, não hesite em ser cruel e pedante nas críticas. Continue firmemente até ser expulso ou vaiado.

Divisor

Tenha sempre à manga empreendimentos fictícios com os quais esteja supostamente envolvido. Use-os quando não estiver fazendo nada de especial (o que não é raro), para mostrar-se sempre na ativa. Apresente-se comumente com o cenho franzido, como se tivesse alguma preocupação insuportável; saque sempre seu bloquinho de notas e escreva qualquer coisa nele.

Exemplo um:

— Está ocupado no momento?
— Nada demais, estou trabalhando de freela* pra uma editora holandesa que quer publicar uma biografia sobre Eckhout.

Exemplo dois:

— Que está escrevendo aí?
— Nada, não…coisas minhas (guardando o bloquinho). Uma idéia que tive pra colocar no meu ensaio sobre os erros conceituais de Leibniz…

(*) “freela” é corruptela do anglicismo “freelancer”

Divisor

Durante sessões de cinema, teatro ou recitais, mantenha atenção constante, ar meditativo e posição corporal adequada. Nunca ria de situações constrangedoras (principalmente do teatro). Guarde o riso para as piadas mais sofisticadas, quando a maioria dos expectadores se mantém calada. Não esqueça do cenho franzido!
Escolha uma dessas posições ao sentar:

Posição A:
Ângulo agudo entre o plano do corpo e o plano das pernas (sinal de interesse), polegar da mão direita sob o mento, indicador sobre os lábios.A mão esquerda repousa sobre coxa esquerda.

Posição B:
Pernas cruzadas. A cabeça repousa sobre os dedos da mão direita em L (indicador sobre a lateral da face direita e polegar sob a maxila inferior). Braço esquerdo sobre descanso da cadeira.

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Em sites de redes sociais modernas, onde seu ego será moldado de acordo com gostos e normas pessoais, a forma de expressão mais segura e redomática é a da imposição pelo desconhecido.

Campos pessoais íntimos são ignorados.

Você não terá sentimentos.

Descritivos como “Quem sou eu:” deve, por obrigação, suprimir qualquer informação relevante sobre você. Jogue com aspectos importantes em campos delicados: “Filhos: vários. (Varie: ‘alguns’, ‘não tenho idéia’)”. Ignore “Idioma:”, uma vez que não existe peso social algum. Seja cínico na “Religião:” Nada de “tenho um lado espiritual independente de religiões”. “Humor:”, seco e rude. “Visão politica:” pede extremismo.

Atenção aos campos em que os hunos te trucidarão: Livros, cinema, culinária, programas de TV e música. Escreva títulos no idioma original, sempre que puder, conforme a cláusula “11” deste manual.

Curingas para filmes de cinema: Sommaren med Monika, Ansiktet, Persona, Sason I em spegel, Satyricon, Saló, Pierrot le Fou, Tristana, L’age d’or, A idade da Terra, Terra em Transe, Barravento, Habla con ella, Hiroshima Mon Amour, Citzen Kane; Aurora; Deus e o Diabo na Terra do Sol; Amarcord; Acossado; Vidas Secas; Cinema Paradiso; Monella; Volver; Koyanisqatsy; Trois Couleurs: Rouge, Bleu, Blanc; Metrópolis.

Curingas para livros: Grande Gatsby (Fitzgerald); Demian (Hesse); 1984 (Orwell); No Caminho de Swann, Em busca do tempo perdido (ambos de Proust); Crime e Castigo, Os Irmaos Karamazov, O Idiota (ambos de Dostoiévski); O vermelho e o negro (Stendhal); Marcas da alma (Gafni); A montanha mágica (Mann); Tempos interessantes (Hobsbawn); O segredo das colinas eternas (Cahil); A aldeia aérea, Três russos e três ingleses (Verne); A Ideologia Alemã (Marx & Engels); Huckleberry Finn, Tom Sawyer, O Príncipe e o Mendigo (ambos de Twain); O Cão dos Baskervilles (Doyle); O Desespero Humano (Kierkegaard); As fores do mal (Baudelaire); Grandes Esperanças (Dickens); Histórias Extraordinárias (Allan Poe); A Letra Escarlate (Hawthorne); O Lobo do Mar (London); Memorial de Aires (Assis); Miséria da Filosofia (Marx); O Morro dos Ventos Uivantes (Brontë); Matafísica do Amor (Schopenhauer); Noite na Taverna (Azevedo); Orgulho e Preconceito (Austen); Para Além do Bem e do Mal (Nietzsche); Primo Basílio (Queiros); Sonetos (Bocage); Tartufo (Molière); A Utopia (More).

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Apresentamos aqui mais uma mãozinha para os cultivados leitores destas esquivas linhas. São títulos que podem ser utilizados indiscriminadamente, para um sem-número de resenhas, críticas, ensaios, artigos, notas, diatribes, apologias e correlatos, em cadernos culturais, revistas alternativas, suplementos especiais et cetera:

“Vestígios do real”
“A inovação do improviso”
“O canibalismo da consagração”
“Relações Vacilantes”
“Elogio da pureza”
“A geografia do sublime”
“A outra luz da realidade”
“Registros do efêmero”
“A arte na crise”
“Além da forma”
“A fagocitação efêmera”
“O sincronismo dúbio”
“Predator autófago”
“Síncope elitista”
“Profícuo mentalizador”
“Vanguardista”
“A celebração da…”
“Dicotomia de valores”
“Vã conceitualista”
“Beligerante”

Outrossim, e mais à mão, o escritor mais prático pode valer-se da combinação aleatória da pequena tabela que se segue:

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Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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