O impulso existencial

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Moro em uma sociedade que respira desafios. Forjada à guerras, fome, pestes, desgraças, religiões, dogmas e atentados. Gente que viveu ou conhece alguém que viveu na dúvida se acordaria no dia seguinte. Uma situação tão desgraçada e extrema que os fizeram superar fraquezas e impossibilidade.

Minha casa fica em um bairro que recebeu nada menos do que 124 bombas V-1 e 4 bombas V-2 alemãs. Inclusive minha casa fica na beira de uma ex-cratera de 20m de largura de uma das primeiras explosões das V-2.

Isso foi há pouco mais de 50 anos. Tempos em que um matusquéla alemão queria passar o rodo no mundo.

De lá para cá tudo mudou: a europa se reconstruiu, a economia cresceu, o povo feliz encheu o mundo de filhotinhos. Uma alegria só.

Acontece que essa felicidade toda não consegue se sustentar por muito tempo na Europa. E eu não tenho ideia do porquê. Só desconfio das coisas. E desconfiar das coisas é o caminho mais certo para induzir erros.

 

Especulemos então

O povo aqui não têm problemas. Criminalidade baixa, educação de primeira, sistema de saúde funcionando, empregos bons, economia forte, dinheiro valendo alguma coisa vezes dois ou três lá fora. Condições excelentes para se tornar mais forte a cada dia. Mas, como qualquer sangue forte que conheço, não existe uma paz essencial enquanto não houver o quê? Pasmem, desconforto existencial. E essa morosidade toda que cinge essas personalidades belicosas tem cara de que explodirá ao menor sinal da fagulha indutória.

Nesse ínterim entre uma desgraça e outra, o povo morre de tédio. Arrastam-se em vidas descoloridas e sem cheiro, como frangolhos de granja que mecanicamente apenas comem e cagam, até morrer se sem saber do quê. Conheci umas personalidades inolvidáveis neste aspecto europeu. Gente que tem como hobby a descontração de um pub. Quer ápice mais subversivo? Faltam-lhes o risco da morte iminente ou a incerteza de uma bomba no meio da fuça? Ou seria isso o início de uma recessão que os extinguirão?

O povo aqui não acredita mais em Deus, nem em qualquer entidade ou misticismo mágico que os levem a crer em algo. Levam, dia-a-dia, igrejas (físicas) à bancarrota (real). Gostam de assistir a versão britânica de Ídolos e, entre os camaradas mais criativos e inteligentes aqui do trabalho, vira assunto por horas extendidas. Algumas pessoas demonstram interesse em alguma coisa maior que a inércia: uns aprenderam fotografia, música ou arco-e-flecha.


Fazer o quê, no final das contas?

Não tenho idéia de como sobreviver assim. Começo a ficar preocupado com este comodismo viciante que arrastam todos ao marasmo.  Qual foi o evento mais marcante e que locomoveu a nação por alguns metros ano passado? Aham, o casamento do príncipe. E este ano? Quiçá o Jubileu de 60 anos da rainha. Olimpíadas? Nah, esporte cansa. E a inglesada está de bico com os ingressos caros e de difícil compra. Alguns até ignoram o evento, como se fosse apenas mais um Jogos Estudantis da Semana da Pátria.

Acabou o mistério, acabaram-se os contos de fadas. Nada mais é segredo e nenhum sonho mais é impossível. Com um esforço mínimo você consegue visitar qualquer país do mundo, comprar uma casa ou, com 10 sobras de salários de gerente-de-alguma-coisa, uma Ferrari meia-boca para flanar por aí.

Isso matou todo mundo e ninguém se deu conta ainda.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>