O imigrante que… sei lá.

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Quando resolvi mudar para a Europa escutei algumas opiniões e dicas totalmente furadas. Não sei de onde saem esses dogmas generalizados e pré-concebidos de que a vida no exterior é um martírio doído de penitente defenestrado pelo orgulho que se evapora. Talvez esse texto aqui seja um dos responsáveis. É um texto bacaninha, bem alto-astral. MAS NÃO CORRESPONDE com a realidade européia.

Infelizmente o europeu não é essa criatura simplória que faz tudo sozinho, como descrevem as escrituras. Vou tentar criar uma lista sobre algumas impressões erradas que já consegui prever e entender depois de um tempo expatriado:

Brasileiro é maltratado na Europa

Note que estamos falando de brasileiros não turistas. É claro que brasileiro é maltratado. Quando você bate o olho em um número de 90% de ilegalidade na imigração brasileira, alguma coisa está errada. O brasileiro que “tenta” viver fora só se fode. Aqui não tem como tentar. Não tem como dar um jeitinho. Quem entra ilegal vive em gueto. Quem sobrevive ilegal se esconde das autoridades. Nunca acham empregos escalonáveis  e recebem salários de semi-escravidão. E você só vai escutar reclamação de gente que levou catiripapo, nunca uma epifania enaltecida de gente que se deu bem pelas terras velhas. É a horda de coió que resolve “tentar a vida” em outro país. Um país de língua inglesa como primeiro idioma. Adivinhe? Isso mesmo, pequeno gafanhoto! O desgraçado não sabe 8 palavras em inglês. Eu apelido isso carinhosamente de tentativa natimorta.

Todo mundo limpa a própria casa com o próprio suor

Isso eu já fazia no Brasil, pois assim sobrava um dinheiro muito bom para gastar com lazer e aventuras. Aliás eu era um ET por não ter empregada ou diarista. Mas vá lá, na Europa tá muito mais fácil achar uma diarista, empregada mensal ou babá. Aqui não tem sindicato. Não tem direitos trabalhistas e é muito cômodo contratar. Preços a partir de nove dinheiros por hora sai muito mais barato que uma diarista registrada no Brasil.

Não existe empregada/babá

Existe, inclusive existe empregada brasileira. E o mais triste: babás pedagogas, cleaners com formação acadêmica e até cuidadores de velhinhos com MBA. A maioria das contratações são informais pelo fato da ilegalidade do item  zero-uno aí de cima. Muita gente aqui tem empregada, tem babá, tem diarista, tem o cara que cuida do jardim.

Europeu não gosta de carro igual brasileiro

Amigo: o europeu INVENTOU o conceito de carro de luxo. E se inventou é porque gosta. Alguns são fãs, outros doentes por carro e por motores. Mas é aquela velha história da linha tênue que separa o prazer de ter um carro da escravidão de se prender em um carro.

Comer fora é inacreditavelmente caro

Claro que é, se a sua cabeça-de-bagre converter tudo. O câmbio para turismo é uma coisa e você deve ter consciência disso. Para quem ganha na moeda local, restaurantes, bares e botecos são muito mais acessíveis que restaurantes e bares brasileiros.

Todo mundo é vegetariano porque a carne é cara

Os cortes parecidos com os cortes nobres brasileiros são proporcionalmente mais baratos. A carne boa é escocesa (e mais cara) e se você tiver curiosidade, pode mapear a origem da carne, a fazenda produtora (e o nome do proprietário) e o tipo de gado que vai consumir. A carne é o item mais caro de uma lista de mercado. A diferença é que o europeu não faz a esbórnia grelhada que o brasileiro faz. Assam hamburgueres pela praticidade e quantidades ínfimas de carne suficientes para saciar a fome. Não acho isso legal, gosto de ver churrasqueira com meio boi espetado. Mas é um estilo de vida interessante.

***

Veja que esta lista é apenas um desabafo empírico e generalizado sem embasamento científico, apartidário e sem relação direta ou indireta com sujeitos ou grupos. Cada um na sua, não devo, não temo e dá meu copo que já era.

Eu apenas fico com pena de ver brasileiro se fodendo 3×4 em lojas, ruas, saídas de metrô com blitz. A vida devia estar muito desgraçada na origem para se sujeitar a isso por aqui. Gente que joga o orgulho no lixo. Por uma razão inexplicável. Dinheiro, infelizemente, não é.

Conheço muita gente assim. E, ao mesmo tempo, conheço brasileiros que vivem muito bem.

A diferença é apenas a inteligência tática.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

3 comentários

  1. Seria a esperança de que trocar de país vá preencher as lacunas que a própria pessoa possui? Não entendo como sobreviver num país sem sequer falar o idioma.

    1. Will, todos os camaradas que eu conheci e que chegaram aqui sem inglês básico vieram apenas para fazer dinheiro. O problema desse fazer dinheiro é que, em um ano de trabalho duro e vida sofrida/privada eles juntam 3, 4mil libras. Acho pouco para as condições.