O homem do cabelo grisalho

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“Você precisa ter conhecimento de uma coisa, nessa sua vida de merda que vive, meu caro.”

“Pois fale, homem!”

“Saiba que a velhice nunca é um processo individualista.”

“Entendi nada.”

“Quando você envelhece, o mundo te acompanha como um cão sarnento. E é nessa convivência de mendigo que você se dá conta — tardiamente — da formação cíclica que a sociedade toma.”

“Boa.”

“Quando jovem — como você é, agora — Tua idéia de mundo é bela demais. Tudo o que é novo para você passa a impressão de que é uma novidade para todos. E uma novidade como essa acaba por se tornar uma jóia rara em seus dedos, um bem valioso que vale a pena portar como uma insígne dos tempos. Problema é quando você está em um período da vida em que sua próle ou os amigos dos seus bambinos reviram e remexem o entulho poeirento e prendem nos paletózinhos de escola uma insígnia amassada e sem brilho, de um metal nodoso e oxidado. É nesse momento em que você, velhaco que é, olha para a felicidade deles e percebe, tardio e doloroso, que os invisíveis oxidados outrora eram, erroneamente, o ouro mais brilhoso que você tinha visto.”

“Prolixo demais.”

“Veja, meu caro: nada me surpreende, sendo eu, coerente. Nem aquelas luzinhas piscapiscantes dos efeitos dos filmes incríveis de Hollywood. Por mais ignóbil que eu possa ser, já reconheci toda essa rebuscada previsão da previsível evolução técnica que abundaria ali; Os efeitos especiais da minha infância fizeram meu queixo bater no chão, tamanha surpresa que me acomedeu. E por ter batido no chão, não tem como descer mais. E a cada mentira bem-feita e contada, sabendo eu que era toda embuste, meu queixo sobe um degrau.”

“Uma constante incredulidade, presumo?”

“Sim. A remota e solitária possibilidade para deslumbrar o velho aqui bate justamente com a decadência física, que mostrando um mundo estranho à minha rotina adulta, plena e capaz, ainda assim não há do que se maravilhar. Ainda mais se o velho aqui gozar dessa boa memória que ainda me há de pregar peças. Ela vai me avisar, tenho certeza, de que já enfrentei essa mesma seqüência idiotizada na minha juventude deslumbrada, porém em um sentido inverso e que me mostrará, ó céus, um final desconhecido já conhecido da vivência esmiuçada, e é por isso que velho algum, como eu, é feliz. ”

“Por que?”

“O meu mundo, um mundo velho de um velho qualquer já deixou de existir faz tempo. Sinto-me exilado em um território aquém. Um lugar sem anistia qualquer que me perdoe. Minha dispnéia dizimou meu passeio pela carreiro do campo; minha miopia embaralhou as luzinhas de vitrines que piscam como vagalumes despreocupados; aquela marchinha que eu cantava, hoje nem assovio mais: minha mente pregou uma peça e não tenho idéia do que era. Nada do meu rosto se inturgescer de suor da minha amante vespertina: agora, só espreito a brisa, que encaixota minhas rugas pelo bafo de um vento alísio.”

“Uma vida morta, acredito então.”

“Há! Longe disso, meu caro. Eu ainda regozijo por minhas fendas mentais, em um abismo secreto — como jamais poderia deixar de ser. Não quero assustar jovem algum com os horrores antecipados. Mas a certeza de que minhas memórias se deleitarão em trocar meu insígne estandarte de vilipendiosas vivências por um casaquilho rígido e impossível de desafiar. Um guardião de lembranças eternas e monótonas. Frias, como qualquer silêncio tem de ser.”

divisor

O homem de cabelos grisalhos levantou da bancadinha de concreto. O rapaz, que até então não conseguiu achar um desfecho cético para o embate filosofal, ajudou-o com um puxão ríspido e seco.

“Deslumbrante sua força. Quase arrancou meu braço, brutamontes.”

“Velho ingrato.”

“Vislumbrado.”

“Nefasto.”

“Alienado.”

“Cético.”

“Cagão.”

E assim foram, por uma descida irregular de paralelepípedos, os dois novos-amigos-odiosos. O velho, bravio e estregueta, por saber justamente que estava… velho. O jovem, apavorado e ansioso, por saber que, fazendo tudo ou não fazendo nada, no fim, estaria a abotoar o paletó rígido e amadeirado do esquecimento.

“A vida é uma merda, catzo.”

“Deveras.”

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.