O homem do bistrot ao entardecer de quinta qualquer.

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Na viela que beira o riacho de pedras escuras do vilarinho que agora resido há uma pequena livraria que denominei de “casamata cultural”. Escura talvez pela natureza literária dos romances alemães que povoam aquelas prateleiras prumadas à esquadro, tem um feitio decente e preços justos (não que sejam bons) para a cultura que a cerca. Na sobreloja do meio andar acima encontro uma casa de cafés, bistrô de internet, mesas literárias e rodas livres de poetas desmedidos da infante milícia cultural.

Sempre vazio às tardes de dia de semana, apenas a mulher dos olhos brilhosos e o careca (face desinteressada de um apago) do terno surrado o frequentam. E eu ali a observar tudo.

O careca quase nada me interessava. Era franzino, pouco alto pouco baixo, o típico sumidouro masculino. Do seu recostado no balcão, uma das pernas no sopé do banqueto outra esticada, punha-se a ler um livro clássico, páginas fedorentas de uma velharia invejável. Fumava um tabaco qualquer e bebericava café-pelado-de-grão.

A mulher dos cilios longos e olhos brilhantes dos reflexos amadeirados do abajur fazia periódicas anotações manuscritas. Supus um diário pessoal, desses que raras mulheres escrevem passagens importantes e cruciais. Ela escrevia com a alma, e isso era claro na feição do rosto e movimentos labiais de um sussurro imperceptivel. E a vontade de ler aquelas páginas me fez vê-la melhor a cada dia no bistrô. Na verdade notei que um certo ar de inteligência influenciava as diversas expressões da bela mulher. Meu Deus! Eu estava obcecado por aquelas pequeninas nuances detalhistas que nem ela devia notar!

Do careca sabia pouca coisa: ele estava ali como contrabalanço de uma beleza feminina perfeita.

Dela? Ah, quase nada, acredita? O barzeiro não a conhecia muito bem. Tinha até medo da moçoila!

Já o bistrô da internet punha-se à nossa disposição com uma maravilhosa máquina computacional que combinava perfeitamente com o lugar: velha, lenta e embolorada. E nela escrevo este diário virtual há algum tempo.

Acontece que publiquei algumas palavras, entreguei a chave com a calota para o barzeiro, sentei-me à mesa costumaz. Não percebi a tela do computador. Deixei este diário aberto na janela! O barzeiro desceu para a livraria. Sem teclado não pude desligá-lo. E reiniciar o computador? Nada! a máquina ficava trancafiada no bauzinho abaixo do monitor. Nem fonte de energia eu consegui achar! Era minha vida exposta na tela. Algum tempo depois a mulher tomou a chaveta com calota, ligou o teclado da banheira digital e começou a rolar pelas páginas do diário. Qual! Ficou bem alguns minutos lendo! Postou um comentário. E a dicotomia dos sentimentos os quais meus pulsantes pensamentos abrigam entraram em um belíssimo confronto. Era a voz trêmula da inexperiência do leve esperar versus a baça e morimbunda vontade do “é meu”.

E então ela acessou o diário virtual no dia seguinte. Fitei de canto de olho. Gravou o nome, qual! E não sei realmente o porquê, mas desse dia em diante nossos olhares cruzaram-se de leve e cumprimentamo-nos com sorrisos leves. Quinta-feira qualquer entramos os três juntos na casamata cultural. Eu, o careca e a mulher dos olhos brilhantes. Conversamos algumas coisas usuais, afinal era um interlóquio coletivo. O coiso sentou-se no balcão, como sempre fez. Eu na mesinha usual e ela perto da janela, com o diário que escrevia sempre sussurrando.

Mais computador, mais textos, e-mails, firulas fúteis. A mulher sentou-se ao meu lado. Perguntou se eu escrevia. E respondi que sim, fazer o que? Ela retrucou sobre o escrever para não morrer. Falei do diário que mantinha, ela disse desconfiar muito que era meu. Elogiou as palavras, fotos. Palpitou minha imaginação fértil. E ela não sabia que daquelas palavras a realidade do meu passado extático infiltrava-se sem pestanejar!

De tardes e tardes no bistrô-café nossas fronteiras intercalaram a realidade de alguns atos. Já sabia o nome dela, o que me era um avanço. Disparates e retrucas eram o óbvio para ver que eu resistia à ela e ela — quem diria! – resistia a mim!

A cidade nos era a vida e de alguns momentos percebíamos claramente que nossas almas eram complementares. Sim parece conversa de boi velho, sei bem disso. Mas quem senão dois perfeitos um-para-o-outro compadeceriam assim?

Assim a conheci, vilarejo pequeno do rio de águas límpidas em pedregosas escuras. Viela beirante com pequenas lojas entroncadinhas. Livraria do alemão de dedos longos e bigode queimado de cachimbo. Um bistrô “quem diria” e o amor ali, sentado na cadeira de perto da janela, só matutando a melhor estratégia de nos atacar pelos flancos. E atacou.

Mas uma coisa confesso e adoro pensar nisso:

Eu nem sequer consegui ler um parágrafo do diário da mulher dos olhos brilhantes e cílios longos.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>