O homem acomodado

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Suas faculdades mentais estavam abaladas e seu controle, esparso. Nada mais do que antes era poderia tornar-se realidade novamente. Não mais aquelas mulheres sofisticadas e perfeitas o queriam em suas vidas. Não mais galantear donzelas. Nem se ater a disparates provocantes.

Hoje a vida se tornou muito mais do que apenas vaidades mundanas. Queria saber porque raios ainda o provocavam. Era claro o desinteresse por complicações, era claro a acomodação da ignorância.

Queria apenas ler um bom livro.

Mas as idéias velhas e ressecadas ainda circulavam à sua volta, zombando baixinho e sorrindo, ironicamente como a vida o é.

Quarta-feira está bom. Aliás qualquer dia serve. Dizer que quarta-feira está bom é apenas conveniência. Nunca nada vai estar bem nessas condições. E ler um bom livro para que mesmo? Ficar mais culto? Suas palavras tornaram-se silêncio. E seu silêncio acabou por se tornar a mudez do longíquo infinito viver.

Aliás, quarta-feira não. Quarta tenho mais o que fazer.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.