O flato real

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O reinado francês antigo tinha uma peculiaridade muito grande: um mini-auditório de seis, no máximo oito cadeiras nos aposentos do rei. Basicamente era para a plebeuzada assistir ao magnífico “despertar real”, facto este que consistia em chegar cedo, antes da alvorada solar, sentar-se nas cadeirinhas e ficar ali em silêncio meditativo até que o grotão acordasse. Aí era simplesmente aplaudir e debandar.

E isso era uma consagração para a sociedade plebéia!

Esse espetáculo do despertar cessou-se para sempre na fatídica Noite de São Bartolomeu, um fato histórico que se sucedeu no dia 24 de agosto de 1572. Essa noite foi conhecida por marcar as sangrentas lutas religiosas que atrasaram a consolidação do absolutismo francês.

E sabe como tudo isso aconteceu?

Pois bem, um protestante chamado Henrique de Navarra fora assistir este magnífico “despertar real”, a convite de sua senhora a futura rainha Margot. Sentou-se ao lado de alguns plebeus xexelentos e ficou a observar a cena do todo-poderoso dormindo. Carlos IX, rapagão vigoroso e saudável, havia se esbaldado de tanto comer no jantar. Devorara javali, batata-doce, mandioquinha, repolho-roxo, rollmops, escabeche e até sagú na sobremesa. Tomou caipirinha, cervejinha e tubaína.

E isso o deixou um tanto quanto flatulento.

Quando os suditos, Henrique de Navarra e sua esposa Margot entraram no quarto, aquele ar ácido e causticante corroeu-lhes os narizes. Henrique estava indignado! ficou reclamando baixinho o tempo inteiro. Não entrava em sua cabeça que um ânus real como o de Carlos IX pudesse desferir tamanhos venenos pestilentos!

E o rei rolava para cá e… Bufa! Rolava para lá e outro traque lhe escapava. Como os castelos naquela época eram nada ventilados, alguns súditos desmaiaram. Quando Carlos IX acordou, os remanescentes que apresentavam consciência aplaudiram. Cínico como sempre foi, reclamou e esbravejou, insinuando que aqueles súditos podres e insossos peidaram em seu aposento real.

É claro que Henrique de Navarra ficou ensandecido com a agressão. Retrucou na hora. E retrucar um rei cínico, mal-humorado e recém-despertado era assinar o obtuário. O embate que se desencadeou depois disso gerou tamanho conflito e ódio que não deu outra: mais de três mil protestantes foram dizimados naquela noite infeliz. O rei pegara ódio daqueles pagãos reclamões.

Alguns conselheiros franceses — com o consentimento real do rei — proíbiram desde aquela data fatídica os infelizes alvoresceres reais assistidos.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>