O escólio da peúga derrelita

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Eu tenho um monte de teoremas, axiomas e postulados que não vão para frente de maneira alguma. Boa parte segue a linha clássica do achismo empírico e nada se pode provar no final das contas. 

As peúgas. Elas apareceram de maneira discordante no meu caminho. Peúga é meia na terra de Camões. E uma meia, perdida no meio do meu caminho é outra dissonância cacofônica inerente.

A meia perdida. É muito estranho encontrar uma meia na calçada. Meio fora do calçado. Jogada no chão. Fora de contexto. E tem aquela coisa tipicamente inglesa de empalar coisas. Sim, coisas do chão. O dono perdeu, oras. Eles juntam e pregam na cerca mais próxima. De preferência as que tenham uns espetos de furar buchadinha de ladrão. Então não me assusto mais quando encontro babadores, sapatinhos zero a seis meses, jaquetas, luvas, cachecóis, gorros. Eles ficam bem, empalados nos espetos de ferro.

As meias. As meias nunca vão para os espetos. Existe uma diferença básica entre a impessoalidade de um gorro e a intimidade de uma meia. A meia junta o chulé, o furo da unha do dedão, o desgaste da calosidade do calcanhar seco.

Meia entra na categoria das calçólas-de-baixo.

Mas quem perde um pé de meia?

Eu descobri.

A meia não cai do pé. Cai da panturrilha. Cai de dentro da calça recém lavada. Por uma pessoa displicente e descuidada. Que a senhora máquina de lavar fez o favor de encaçapá-la dentro de uma das pernas do eslaque. E que, ao vestir direto do varal, ficou ali, espremida entre a carne e o pano, entre os pêlos e a trama, entre a musculatura estriada e o algodão em bolotinhas.

E no vai e vem da andança a meia escorrega, desce, desiquilibra-se e cai.

É triste, porque aquele pé de meia nunca mais vai se juntar com sua meia-metade no varal.

Eu fiz o teste. Encontrei uma meia no chão, quando caminhava cedo ao trabalho. Eu já caqueava um desfecho. Chovera durante a noite. Aquela meia caída, feminina. Não estava ensopada, não tinha marcas de achatamento temporal por água celestial. Era uma meia fresca. Recém abandonada. Nada poderia me fazer mudar a idéia do teorema da meia escorrida da calça recém lavada.

Olhei para os lados, conferi a retaguarda, nenhum vascaíno por perto para me chacotar.

Agachei, colhi a meia, olhei pelos flancos. Aproximei. Em um ato puro e científico, cheirei a meia. Veja que eu poderia, neste momento, levar um petardo olfativo de um queijão-podre. Cair no prêmio Darwin como mais um cientista burraldo que testou o próprio experimento. Ou confirmar tudo e fechar mais um postulado sem meias-palavras.

A meia tinha cheiro de roupa lavada. Sabão de uma marca. Amaciante de outra. Fresca.

E sim, as meias que encontro no caminho são tristes. Rescaldos perdidos de um relaxo inconsciente e não-percebido.

Entristece-me o tal fato das meias perdidas. Eu sinto dó. Aliás, sinto dó de umas coisas sem muito cabimento, ultimamente.

E é essa a beleza da simplicidade que minha vida se tornou: um observatório de detalhes minúsculos. Detalhamentos de vidas cotidianas que jamais caberiam em qualquer movimento mais complexo que um-dois-um.


Nota do autor: o título é um tanto danoso e insensato, eu bem sei. Estou viciado na língua portuguesa (de Portugal mesmo) e a diversão que antes era da descoberta agora é um vicio denso. Peúga. Quer um nome mais pantufento para uma meia? Assim sigo quase escrevendo derrelicto porque é mais dissonante ao meu auscutador. 

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.