O comedor de pepinos.

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Magro, cenhos franzidos e dedões ossudos como uma pederneira de pistola pirática, Humberto era uma ossadinha branquela e desnutrida que perambulava pelos cantos de uma repartição pública cafifenta em um prédio público decadente dos anos 60.

Auxiliar de serviços gerais — e xerocador — orgulho de sua familia de vendedores e mascates. “Betinho é servidor do serviço público, olha só” e assim ele sustentava sua audácia pela familiagem toda. Problema é que seu ordenado residual era porco demais para sustentar qualquer mentira mais papeloenta. Não podia se dar luxos. Carro era transporte público, chave-canivete era o cartão do vale-transporte. Cinema? Em casa, com filmes comprados no camelô, que filmou no cinema qualquer. Jantar fora? Quintal.

Aliás, o parasimpático Betinho era avesso à alimentação saudável. Contraiu o mal do vegetarianismo ainda 0cedo, e assim restringiu-se a poucas frutas e verduras para o sustento diário. A razão, ninguém sabia, óbvia: carne era ítem fora do ordenado mercantil.

Dessa mesquinhez nutricional Betinho sofreu: atacou-lhe a anemia, sua pleura fraquejou, a pele — elástica como a de uma bribinha — era branqueada e fria. Olhos fundos e avessados por olheiras cheias de cafiaspirinas mordulentas que amainavam sua dor-de-cabeça constante.

Betinho parecia um velho ranzinza, mas sua juventude aturdida escondia apenas poucos quarenta anos.

Morreu, sabia?

Enveneado, olha só. E por cianureto, aquele veneno bonito das estórias do Sheldon e da Agatha. Cianeto de Potássio. Descobriram ele desfalecido da língua roxa e então investigaram que não morreu de morte morrida, e sim matado. A família quase bailou com esse entrevero todo e o velório foi atacação e chororô.

Niguém sabia ao certo quem poderia ter feito tal desfeita com Betinho. ele era um cara tão ruéla e fracassado que não havia razão singela de aniquilar o bocó. Mulher não tinha. Família era mais alçada no sucesso e prosperidade do que ele jamais sonhara.

A história esfriou, todo mundo acabou seguindo a vida e Betinho foi sumindo nas lembranças poucas que ainda, vez ou outra alguém atiçava no brasil de lenha leve.

O que ninguém suspeitou foi na dieta falha de Betinho, o vegetariano murrinha. Ele comia pepinos e maçãs. Mas das maçãs ele debulhava até as sementes.

E, no final das contas, ninguém estava nem aí que semente de maçã é um demoniozinho cianético, carregado do veneno da baba do cão, ali, a milímetros da sua boca.

Comer as sementes, todo dia, aos pouquinhos, o fez sucumbir sem nem dar um tchau para a Cidinha, a moçoila do facsímile que ele gostava. E assim a seleção natural dos carnívoros prosperou em cima de um aficcionado por insistir que vacas e frangos tinham almas.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.