O carnaval e a minha vida

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Nunca reclamei do Carnaval.
Nem pestanejei.
A folia dos mundanos, oras.
Uma festa-monstro.

Monstro no bom sentido.

Mas eu não gosto do carnaval.

Gostava do feriado em si, mas não era bom. Não dava praia boa. Não tinha um lugar tranquilo – com o mínimo de turismo – que não estivesse convertido ao bloco dos pecadores da orelha alheia.

O carnaval é fenômeno antropológico muito mais entranhado do que a Sapucaí. Um píncaro mágico e único no compasso da sociedade. Um êxodo para qualquer lugar que não seja perto de casa. Qualquer lugar. Todo mundo, ao mesmo tempo.

Como surgiu o carnaval

Um monte de nobres europeus tiveram coceiras simultâneas nas partes nobres inferiores. Ao mesmo tempo. Colocaram umas máscaras e criaram uma orgia sem muita identificação.

E como o carnaval parou no Brasil?

Alguns desses nobres fizeram coisas não muito nobres e foram deportados para o Brasil. Trouxeram a folia junto. E assim, foi.

E o Sambódromo?

Getulio Vargas era chato igual à eu e não gostava do carnaval. Nem do samba-de-raiz. Acho que nem de marchinha. Gaúcho, né? Assim ordenou que a festança mundana fosse restrita à um cercadinho no meio do nada. E que a bagunça fosse militarizada: fanfarra e toques compassados igual desfile militar. Em blocos. Com sargentão à frente. E assim é até hoje.

As marchinhas, os blocos.

Antigamente era brega ir nos blocos. Coisa de tio velho que não viajou e teve que cuidar dos netos pequenos. Agora a coisa mudou: é hipster, é subversivo, é a redescoberta da cultura, um ecótone a deflorar. Super legal na #selfie com os amigos. E para azedar a tapioca, sempre aparecem aqueles retardados vestidos de zumbis. Eles sabem do constrangimento. A ideia, na teoria, parece legal. Mas na hora que eles circulam pelos populares e falam “Miollooossshhx” (são zumbis cariocas) a ficha cai. E a acabrunhação desalenta.

Pare de reclamar, você mora em Londres agora.

E aqui a noticia sobre a efeméride brasileira é bem reduzida, uma benção. Mas existe ainda um problema recorrente: O CARNAVAL DE NOTTING HILL. Sim, um carnaval. É a foto aí do topo. Tem carro alegórico, as-gorda com biquini menor do que seria um número apertado. Moolatah, caipirina, fidjoada, Pelé, Kaká! Gente bêbeda, lojas com seguranças, outras com tapumes nas vitrines para evitar a fadiga (foto acima, novamente). Clique aqui. Vai, clique. E veja que maravilha é. Parece o carnaval de Curitiba. Ou de Sinop. Ou Barra do Garça. Aliás, não queria saber como é.

E a rede social se estranha com a realidade.

Só estou aqui botando os pés na cara da sociedade porque eu não sabia que o carnaval tinha começado. Foi um petardo muito antes do esperado, convenhamos. O comportamento de linha padrão nas minhas timelines sofreu alteração de consistência, cor e cheiro e a descoberta deu-se pela seguinte amostragem (definida em 5 grupos de grandes mamíferos modernos):

Os Comunistas: Os comunas gostam da festa, em geral. Dedicam mais tempo ao outro lado da vida social da vida real e desprendem-se um pouco do Facebook, aquela rede maldita capitalista. Alguns atacam a direita em campana.

A Direita opressora: A maioria dos coxinhas fedorentos porcos reacionários encontram-se em praias, resorts e lugares paradisíacos. O problema é que nesses lugares da direita ultra nacionalista imperialista opressora tem WI-FI. Então os demagogos olavetes continuam espraguejando (espairando + praguejando) e falando mal do governo fora lula e leve todo mundo.

Os Religiosos: A maioria está em retiro ou acampamento. Os que ficaram, fazem alguma vigília. O restolho compartilha foto da virgem maria e respondem e-mails normalmente.

Os Ateus: Os ateus não têm fé então não acreditam no milagre da morena gostosa que deu mole para ele do nada. Continuam propagando videos das congregações e pequenas igrejas que não sabem por onde a galinha mija. Calcinha ungida para o carnaval. Camisinha abençoada. Culto para edificação do lar. E assim vai. Mais informados na fé do que muito religioso.

Os Maconhero:  Tão tudo offline. Uma ou outra foto pipoca, aleatoriamente, quando a internet pega no meio do mato. Uma cachoeira e um monte de gente com sorrisão e olhinhos apertados (do sol). Os melhores relatos para acompanhar na linha do tempo.

No mais é apenas uma semana, amigo.

Veja pelo lado bom: o sossego dessa semana será abençoado. Semana que vem os direiteiros voltarão. Os comunas entrarão no braço. Os puristas postarão videos do carnaval com a legenda: daqui 9 meses você vê o resultado. Algum idiota vai largar aquele chorume do Danilo Gentili opinando sobre o carnaval. E a rede voltará a ser uma sucessão de agressões desmedidas.

Adoro vocês, revolucionários virtuais.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

Um comentário

  1. O mais legal é o carinha na foto disfarçado de policial londrino… Ah, não… Ele é mesmo um policial londrino… Hehe Qualquer ano desses vou passar o carnaval lá pra ver como é…