O barítono da catedral-maior.

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Quando criança, sua educação religiosa era extremamente severa: todas as quartas, catequese, todos os sábados, ensaio no coral e domingo, missa. Aquele menino raquítico ao contrário de seus amigos, gostava dessa vida espiritual e religiosa. Sempre se esforçava ao máximo para afinar sua voz com o coral.

E sua vida era graciosamente bela. Certa vez o ministro que cuidava das leituras bíblicas requisitou alguns jovens do coral para a leitura na missa dominical. Seria a consagração do menino! Ele prostrou-se diante do microfone, encheu os pulmões de ar e recitou todo o parágrafo. Seu discurso foi certeiro. Não gaguejou, não comeu acentuações nem pontuações.

— Tua voz é muito feia, moleque. Volte para seu lugar.

Aquelas palavras do ministro rasgaram-lhe a alma! Como alguém poderia falar assim? Como alguém, dentro de uma igreja, poderia fazer algo assim?

Ninguém percebeu, mas aquilo mudou o menino para sempre. O tempo passou, ele continuou se dedicando a música. Seu corpo magricela acabou por virar um grande homem. Morou na Itália, aprendeu latim, conheceu o canto gregoriano. Tornou-se barítono. Acompanhou por alguns anos a Orquestra de Berlim, sagrou-se primoroso.

Gozando férias em sua cidade natal, descobriu que o ministro que lhe feriu a alma estava em vias de bater as botas. Sem pestanejar, conversou com o pároco e encomendou-lhe uma missa especial, com trechos cantados por ele, em latim. No dia da missa, casa lotada, o ministro em sua cadeira de rodas na primeira fila. O barítono iniciou a Missa Benedicta. Era cantada em latim. E naquele momento, somente ele e o ministro entendiam a língua.

O que ninguém percebeu foi que a letra havia sido trocada. O barítono reescrevera tudo: o Kyrie, a Gloria, o Credo, o Sanctus & Benedictus, o Agnus Dei. Nem o padre, italiano, percebera a troca. O povo delirava com sua voz forte e envolvente. A cada verso maldito, uma punhalada na alma do velho ministro. Eram agressões verbais que estavam encrustradas no âmago da alma daquele vociferador.

Ao final da missa o público extasiado aplaudia em pé, enquando o ministro, atônito, surtava em um ataque cardíaco.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.