O Ansemo

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Ali na rua quinta que sobe do porto, casa do Zé, das janelas grandes e caiadas de um branco de doer os olhos estava o Anselmo, flho mais velho.

Sempre foi perrengueiro e meio vagabundo esse filho mais velho do Zé. As janelas grandes e caiadas eram vagarosas, como as lentas horas de calor daquela enseada de mulatos curtidos do sal.

Aí passa na frente do Anselmo um carro estrangeiro e vermelho. Desses de abaixar o telhado e deixar a cachôpa para fora. Lento e de ronco barulhento. A rua quinta do porto, essa da casa do Zé, tem um calçamento irregular e torto, como tudo ali ao redor.

Passa o carro, Anselmo o desdenha. Anselmo o inveja, Anselmo o deseja. “Ah, um carro desses, hein anselmo?” fala para si mesmo e pensa em quantas meninas poderia carregar ali. “Mas você é vagabundo mesmo, hein Anselmo! Não faz nada o dia inteiro. Não trabalha nem ajuda teu pai. Só curtindo a carraspana.”

O carro vai, Anselmo acompanha em pensamento.

No carro o homem fita aquele Anselmo estático e sonolento. Pensou na beleza que seria ter uma vida desregrada e livre. Mas o celular vibrou no bolso e o despertou do pensamento viciante.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

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