O anonimato literal

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Cheguei em casa para almoçar e em cima da minha cama uma carta pairava solícita. Letras redondas, bonitas e femininas. Não tinha remetente. Abri e o que encontrei escrito naquele papel cheiroso e de texturas leves mudou meu dia.

Era uma carta de amor.

E era anônima. De uma garota que dizia me conhecer muito bem, que adorava meu jeito e que eu não percebia esse amor que ela tinha por mim. Caramba, eu não percebia mesmo! Afinal eu nem idéia tinha de quem era! Estava me sentindo nas nuvens. Uma admiradora secreta, que tal!

Eram cartas diversas, uma ou duas por semana. Cores, nuances e novidades a cada nova leitura. Eu queria descobrir quem era a jovem. Ela escrevia coisas minhas que poucas pessoas conheciam. Sem dúvida ela me conhecia, ou alguém muito próximo dela me conhecia.

E assim eu reparava em todas as garotas à minha volta. Sempre esperando um sinal ou um pequenino blefe que a denunciasse. E me esforçava nisso. Até que em uma carta, o comentário: “Você olhou em meus olhos de uma maneira que não atirar em seus braços naquele momento foi ato extremo em minha vida.” E eu olhei todas as mulheres à minha volta. Foi como se eu não tivesso olhado para elas. Aquele anonimato estava me enlouquecendo.

Um mês depois e cartas e mais cartas. Estava começando a ficar bicudo com a indefinição da moça. Ela sabia tudo de mim e eu nada.

Quando a gente terminou
E não é que teve um dia em que chegou uma carta de envelope preto em minha casa? Era uma carta de texto frio e incisivo. Havíamos terminado. Olha só! Levei um fora de uma mulher que não sabia quem era. Terminei um relacionamento anônimo, por carta. Já havia terminado antes por telefone, por antecedência, cara-a-cara. Mas por carta?

Tudo bem, achava aquela mulher estranha demais para mim.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>

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