O amigo ali

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Eu tenho um amigo muito inteligente.

Conversamos muito, muito mesmo. Sei que ele mora em uma cidade grande, mas não a minha. Não sei com o que ele trabalha ao certo, é verdade. Ele é apelido. O nome real não conheço. Culto e elegante, vivido e despretensioso. Pratica a arte da amizade clássica, leve e sem cobranças. Ele tem defeitos; conhece minhas falhas. E nada disso importa para ele ou para mim.

É o que muita gente rotularia de “virtual”. Alguém, que na prática, não existe. Tal e qual esquizos.

De vez em quando desaparece por uns tempos. Não deixa vestígios de onde está. E, mesmo assim, com essa conectividade fragilíssima de apenas um fio transparente de contato virtual, alimento as esperanças de que ele nunca desapareça.

Meio estranho e ilógico.

“Poderia você perguntar-lhe o nome completo, quiçá algum telefone!” Diria alguém aqui ou acolá.

Mas eu não quero. Amizades inteligentes — assim como amores voluptuosos — terminam em histórias completas. Ou em mentirinhas homéricas de um desfecho inédito, vá saber.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.