Noveleta

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Rapaz de 22 anos.
Banho demorado, barba feita duas vezes. Desodorante leve, perfume importado, leves notas doces. Colocou seu habitual terno azul-marinho, gravata vermelha escura, camisa engoada, sobretudo por cima de tudo. Estava muito frio. Parou diante do espelho. Seu rosto estava muito triste, tentou esboçar um sorriso fajuto, ficou forçado demais. Entrou no carro e saiu.

Mulher de 26 anos.
Banho demorado. Mulher sempre toma banho demorado quando lava o cabelo. Xampú perfumado, imersão em sais de banho na banheira por quinze minutos. Secador de cabelo, maquiagem sóbria, perfume carregado e vestido preto, simples, básico. Decotes insinuantes para finalizar.

A trama
Ele chega com antecedência à casa dela. Sobe, tem a chave. Cumprimentam-se friamente. Ela ainda está jogando coisas dentro de sua bolsa. Procurando o celular perdido em algum canto. Ele percebe que aquele jantar vai ser longo e dolorido. No carro, silêncio. Chegam ao restaurante, sentam-se e começam a conversar. Ela começa a falar de uma maneira surpreendente. Coloca suas tristezas, explana toda a sua amargura, fala de seus desatinos, desilusões e frustrações. Ele tenta rebater, defende-se como pode, mas não adianta: é tudo verdade.

Ela não deu a atenção especial que ele queria. Ele era inocente demais para saber o momento certo de dizer palavras confortantes. Não sabia a diferença da tara dela e da tpm. Os dois não se bicavam. Tentaram, tentaram e tentaram.

— Nosso relacionamento acabou… — Ela balbucia, quase chorando.

Ele pede mais tempo para pensar. Ela não quer extender mais essa amargura de uma frustração no relacionamento. Ela levanta, com o guardanapo de linho branco, macio, entre as mãos. Enxuga uma lágrima e vai embora. Ele chama o garçon cancela o pedido.

Entrega uma gorjeta, pega o carro e sai, sem rumo. No rádio, banda pop nacional, música lenta, embalo suave. A letra desfere-lhe golpes em seu estado de tristeza que é inevitável o choro, seguido de um soluço leve e triste. Passeia a noite, devagar, não pensa em nada. A cena dela levantando-se foi forte e não sai de sua cabeça. Sua mente intercala momentos de euforia, tristeza, revolta por sua incapacidade, medo por sua confusão. Pára no sinal vermelho.

O desfecho trágico
Ele avista uma prostituta. Bonita e elegante. Perde-se na selva da sua existência e a convida para entrar. Ela está com um perfume forte. seu olhar é firme e intimidador. Seguem para um motel. Ele já não sabe mais nada, apenas escuta a música melncólica. Entram em uma suíte grande e confortável. ela senta na cama, como quem quer testar a maciez. Ele senta ao seu lado.

Encosta-se levemente na mulher. Acondiciona a cabeça no colo dela. Chora baixinho. Confunde, novamente o papel de macho. Troca o papel da mulher ao seu lado. Ela entende o que ele quer. Passa a mão suavemente em sua cabeça.

A conclusão
Levou quase uma década para entender as mulheres. Conheceu muitas diferentes, brigou com outras tantas. E chegou à conclusão óbvia da relação: descobriu que as mulheres são muito mais inteligentes, sagazes, dominadoras e manipuladoras do que se imaginava. E descobriu que uma mulher consegue dobrar um homem em questão de minutos.

Ele queria pedir desculpas pela inexperiência e falta de sensibilidade em perceber sentimentos femininos.

Mas sua experiência agora era o que o freiava.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.

0 comentários

  1. Não se ofenda, mas esse teu texto me lembrou um que li no livro do Jabor.
    E que, apesar de ter sido escrito pelo Jabor, é um bom texto (e o livro também não é de todo ruim).

  2. Um velho amigo meu, escritor profissional e que conhece muita coisa da literatura, disse-me uma vez que o Jabor, como escritor, é um bom cineasta. Alias, nem tanto, por isso virou um critico político.

    Escrevi em 2001 esse texto, repostado do antro antigo e verdulento. Talvez essa fórmula literária do texto seja batida demais, vai saber…