Não sou apenas casca.

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Só reclamo e critico o mundo aqui na revista digital Opio MadCap Ralphsperfegk.com. Aliás esse espaço parece um espelho do meu lado negativo e infeliz. O pessimismo etéreo da minha vida distante.

Juro que sou menos chato. E até sorrio nas dificuldades.

Por isso resolvi criar uma lista feliz das 48 pequenas coisas interessantes que me deixaram feliz nos últimos tempos:

O dia em que a gente decidiu mudar.

Morávamos em uma casa que tinha quintal e jardim na frente, vitoriana, mais velha que o descobrimento do Brasil. Dizíamos que ela tinha ‘potencial’, mas na verdade o dono não estava nem aí pra coisa. Achamos um apartamento novo, bonito, com uma cara especial e inspirador. Foi uma virada excelente na rotina.

As raposas do quintal.

Na última noite da casa velha, escutamos uns barulhos estranhos no quintal: eram duas raposas, filhotes, brincando. Foram uns 5 minutos de bagunça e me deixou feliz ver esse tipo diferente de natureza urbana. Foi uma despedida diferente.

O robin que pousava na tira da minha Havaiana.

Toda vez que eu rastelava as pedrinhas no quintal aparecia um robin para comer as minhocas e insetos diversos. E como as pedrinhas eram ruins para ele andar o abusado resolveu usar a tira do meu pé como puleiro. Toda vez que eu começava o serviço o coiso escutava e vinha conferir.

O filhote que caiu do ninho.

Passarinho mongol caiu do ninho. Colocamos no galho da arvore, dona passarinha veio acudir, alimentou e passou a noite ao lado dele. No outro dia eles avoaram. Fim.

Bicicletarás.

Troquei o transporte coletivo passivo diário para o trabalho pela bicicletada pró-ativa construtiva. Foi um parto no começo, quase morri. Mas comecei a monitorar meu tempo e os numeros começaram a cair: tempo, peso, gastos monetários de transportes.

O véio da placa.

No caminho da bicicletada diária tem um véio da placa. A gente chama eles de lollypop cross guard, ou guardinha do pilulito. Ele sempre me pára na faixa de pedestres em frente à escola de jovens moças de verde. Começamos a nos cumprimentar. Tempos depois conversas rápidas sobre o tempo, amenidades. Acho legal que ele sempre sorri quando passo e acho que até fica esperando o gordão de casaco verde passar diariamente.

O mercado de frutas da subida da igreja.

Minha rua se chama Church Hill. Tem um mercado aberto – ou feira – que vende de tudo: fruta barata, cerejas em conserva, carnes, verduras, nozes e castanhas diversas. Roupas, tecidos, bugigangas chinesas, brinquedos, cabos eletricos e carregadores velhos. Na verdade qualquer coisa que possa ser vendida. E tem um público muito eclético.

O dono do meu prédio é um cara engraçado.

E empolgado. E rico. E inseguro. Construiu, colocou a gente como cobaia-primeiro-morador e toda semana queria saber se a gente estava gostando do espaço.

Quando os Red Arrows passaram rasgando sobre a minha cabeça.

O dia era triste e de luto, meu sogro falecera e eu estava conversando com a minha esposa. Quando a gente se abraçou escutamos um barulho muito estranho. Foi o tempo de olhar para a janela e ver, em um sobrevoo rasante, os nove Folland Gnat em formação. E logo acima da minha casa começaram a soltar a fumaça tricolor. A imagem era algo parecido com isso. Foi um momento legal, principalmente pela homenagem que fizeram.

Minha mulher continua bonitinha.

É claro que estou salvando meu couro com essa afirmação. Mas a verdade é que, depois de DEZ ANOS, eu sou inteiramente apaixonado por ela.

Minha vida impressa.

Colocaram a minha cabeça em jogo com um projeto de impressão complexa com uma tiragem de 400.000 cópias. Quase MEIO MIÃO! Negociei com os grandes, ganhei agrados de gráficas e editores. Trabalhei igual à um saruê albino. Alem disso algumas fotos minhas viraram: postais, páginas de livros e páginas de revistas. Para quem tinha um background de internet, esses dois anos foram bem tradicionais na área gráfica. E o mais interessante é que os diretores aqui confiam 100% em mim. Isso é bom. Mesmo porque não rodei na mega reestruturação da empresa onde 25% da empresa rodou.

Visitei a Suíça por acaso.

Eu poderia ter escolhido duas passagens para o Brasil: uma com escala em Genebra e outra com uma conexão de 8 horas em Zurique. É claro que fui para Zurique. Melhor decisão dos últimos tempos.

Vi, ao vivo, uma banda que gosto.

Aliás, eu estava arrumando o palco no backstage. Assisti ao show ao lado da banda. Não tirei uma foto com eles por que… sou um cara chato. Ou porque eu sempre fico maior que todo mundo na foto. E acho isso estranho.

Aprendi a usar ferramentas e novas técnicas.

Softwares complexos. Projetos de video, animação e 3d, editoração, gerenciamento de produção (bleargh), novas técnicas fotográficas, iluminação e direção de fotografia. Ainda estou há 4233 dias sem aprender Adobe Flash. Quem sabe um dia.

Descobri como viver uma vida simples.

Duas coisas que me perturbavam: finanças e compromissos. Recomecei uma vida livre de parcelas, cartões de crédito e com a despreocupação dos juros ou do consumismo desenfreado.

Existem mais opções para se alimentar.

Uma coisa que não falta em Londres é comidinhas do mundo inteiro. É fácil achar restaurante nepalês, mauritânio, etíope ou até italiano.

Os novos amigos.

É bem difícil fazer amizades depois que se fica velho. Então esse ano foi de uma sazonalidade atípica na lavoura social. Varios novos amigos de Portugal, Africa do Sul, França, Italia e Brasil.

Vi umas coisas de avião.

O apartamento dos meus pais no approach. Passei raspando o Pico Marumbi na saída de Curitiba, inclusive vi uns humanos por lá. Superagui, Terceira Ponte de Brasilia, Genipabu, Cantareira. Alpes Suiços. Eu sempre fico de boca aberta com janelinha de avião.


Agora voltemos às reclamações de todo dia.

Mais sobre o autor

Ralph Spegel

<p>Forte, estatura heróide, pálido de argila, barba inteira, rente, pontiaguda, vestindo corretamente, parecia à primeira vista uma dessas nulidades elegantes, a que a natureza, satisfeita por masculinizar-lhes o aspecto heróico, regateia lugar no espaço. Bastava porém, reparar na flexão das suas sombrancelhas espessas, na expressão imperativa do seu olhar, para descobrir dentro dessa míngua orgânica, um caráter em carne viva.</p>